46ª Festa do Clima - Chiqueirinho dos privilegiados

São Carlos teve neste feriadão do Dia do Trabalho a 46ª edição da tradicional Festa do Clima. As principais atrações foram os shows de Lulu Santos, no Domingo, e da dupla Cesar Menotti e Fabiano na Segunda, véspera do feriado. Tudo de graça na Praça do Mercado Municipal. Um pontaço da administração municipal, não fosse um pequeno detalhe. Um certo espaço VIP, oferecimento da Prefeitura Municipal de São Carlos exclusivamente a seus mais “nobres” “”convidados””.

Todos os eventos foram gratuitos. O espaço disponível na praça era muito amplo, a ponto de manter relativamente tranquila a movimentação das pessoas, em que pese o enorme obstáculo no meio da praça (uma “ilha” de iluminação de palco muito inconveniente). Não havia absolutamente nada que justificasse reservarem um espaço restrito aos amigos do prefeito – que, claro, também estava presente. Assim que vi aquele cercadinho imaginei que pudesse ser algum isolamento de segurança, ou, forçando a barra, um “espaço de imprensa”, para registros em foto e vídeo, ou coisa do tipo. Quando o lugar começou a encher de pessoas ostentando uma pulseira verde no pulso e a empáfia na face foi que me dei conta do ridículo da situação.

Eu fico imaginando o que se passa na cabeça dos caras quando decidem uma coisa dessas. “Pô, vamos trazer o Lulu, e se quisermos assistir vamos ter que nos misturar com essa gente diferenciada? Vamos reservar um espaçinho  aqui só pra nossa patota, o que acham?”. Deve ser algo do tipo.

Um prefeito que carrega como lema de sua administração uma “cidade moderna e humana” não deveria demonstrar tanto medo e distanciamento de seu povo. E me sinto à vontade para criticá-lo por essa atitude elitista e impopular por ser seu eleitor no último pleito, e provavelmente no próximo, se o cenário previsto se confirmar.

A careca da foto é a do excelentíssimo Prefeito Oswaldo Barba. Eu juro que tentei depois tirar uma mais próxima, mas a bateria do celular miou.

PS: Também não engulo esse tal de Recape São Carlos. Os caras estão recapeando asfalto que não tem dois anos e não apresenta uma falha sequer! Só para aumentar os números e estender o tapete novo onde o santo passa? Enquanto um monte de ruas continuam parecendo um queijo suiço? Ou quando muito, fazem o que fizeram da minha: um monte de remendo espalhando piche na rua toda, e que não deve resistir à próxima temporada de chuvas.

anderson

2 Responses to “A gente diferenciada são-carlense”

  1. Infelizmente, nossa via de relação humana se constitui na vertente de elite e massa. Desde sempre. Toda organização social prática que tivemos é, historicamente comprovada, elitista. O espírito da diferenciação, da higienização social é algo presente desde os tempos patriarcais, quando um filho era privilegiado frente aos demais de uma tribo por ter nascido antes que os outros, o primogênito, que herdaria uma parte maior que os depois irmãos dos bens e a liderança do grupo.

    Segmentação de castas, algo que existe em todas nossas culturas. Das orientais mais complexas às ocidentais mais iluminadas pelo conhecimento e humanismo. A realidade que de forma prática sempre beneficiamos a ordem específica daquilo que nos elevará a um status de privilégio. A tendência humana é de utilizar qualquer poder para elevar-se, como se o posto de autoridade e capacidade de exercer algo fosse o viés justificador de nossa existência. “Só existo porque faço notar quem sou através do abuso da capacidade que me foi dada”.

    Essas castas livres de indivíduos diferenciados são formadas na única e exclusiva necessidade de justificar a si mesmo como alguém elevado dentre a massa. É o ego gritando desesperado a necessidade de ser reconhecido como acima do comum, quando na verdade, se é mais baixo por sentir a imensa necessidade de ser visto como alguém que não é igual aos demais.

    O que é terrível, pois no fim, temos todos nas veias sangue do mesmo vermelho, nos pulmões o mesmo ar e veneno. Daí a única forma de diferenciar um do outro é não pisar no mesmo chão. Mas cercar um punhadinho de terra e vedar entrada para os limpos não faz o chão outro. Apenas o faz menor. Menor em valor. Menor em moral.

    • Perfeito Rhedy. Eu critiquei uma ocasião específica, e me alertaram no Twitter que a situação é recorrente, que “sempre foi assim”. O que não sei se é atenuante ou agravante, provavelmente nenhum dos dois. Só perderam a excelente oportunidade de serem, aí sim, merecidamente, diferenciados.

      Então, por ser algo que transcende à questão municipal, como bem explicou acima e como ficou claro pelo comentário do Twitter, a crítica vai não apenas ao prefeito, ou à administração municipal e seu partido, mas diretamente dirigida a todas essas pessoas de ego de bexiga.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *