A praça não é nossa
A Prefeitura de São Carlos iniciou – ou melhor, reiniciou, já que processo semelhante foi feito em 2009 – a retirada de quiosques e ambulantes de praças ou outros espaços públicos. Por exemplo, a remoção do garapeiro que ficava em frente ao cemitério Nossa Senhora do Carmo, ou dos quiosques da Praça Brasil, na Vila Nery. É lei, eu sei, mas a quem isso beneficia? De uma só vez detonam com tradições locais e com o sustento de famílias honestas, que estavam ali trabalhando, e do dia para a noite estão sem nada. E tudo isso sem oferecer uma única alternativa equivalente aos comerciantes ou mesmo à população, que utilizavam-se do serviço ou dos produtos desses autônomos.
Recordo que há coisa de dois ou três anos critiquei duramente a atitude da Prefeitura de São Paulo de proibir as famosas barracas de sanduíche de pernil nos arredores dos estádios. Agora, me fala: quer coisa mais tradicional, bacana e popular que ir ao Pacaembu e, enquanto espera a hora do jogo, saborear um suculento sanduíche de pernil? Imagina o cidadão que sai de casa cedo, leva duas horas pra chegar ao estádio, mais duas até o jogo começar, mais duas de jogo e, pra terminar, outras duas para chegar em casa… São oito horas, e quais são alternativas? O mini dog seco e caro da lanchonete do estádio; Alguma padaria abarrotada e distante das imediações; Com sorte, encontrará algum ambulante com uma cesta ou caixa de isopor vendendo o sanduíche que fez em casa bem mais cedo, mais enxuto e já frio. E nessa já morre o argumento da vigilância sanitária.
A ironia é que quando me contaram sobre o fim das barracas no entorno do Paca, eu usei justamente a Prefeitura de São Carlos como exemplo. Ainda nos primeiros anos do primeiro mandato do Prof. Newton Lima, a administração municipal quis remover todos os ambulantes da “baixada do Mercado”. Mas ao invés de simplesmente “limpá-los” dali, dizimando o sustento de muita gente e o tradicional comércio popular, optou-se por regularizá-los e alocá-los em espaço apropriado, com boxes feitos com alvenaria, com mais estrutura e etc. O tal “camelódromo”, popularmente conhecido em Sanca com “Shopping Beira-Rio” (se bem que deveria ser Beira-Córrego).
Agora, já com outro prefeito – mas praticamente a mesma gestão – simplesmente varrem essas pessoas das praças, em que, vamos falar a verdade, só íamos para consumir deles. Dizem estar cumprindo a lei de autoria do vereador Dorival Mazola – que por sinal, faleceu hoje, que Deus o tenha. Mas qual o sentido disso? Deixar as praças mais limpas e vazias? Ou alguém ainda vai às praças, sobretudo a noite, só para passear? Eu me lembro que no período em que estudei no Industrial, a Praça Brasil à noite era virtualmente dividida em duas. A parte de cima, próxima à escola, onde estavam as barracas e o pessoal frequentava para comer algo, e a parte de baixo, populada por usuários e vendedores de drogas. Agora a praça é toda dos traficantes, suponho, assim como a Praça Charles Miller (em frente ao Paca) continua dominada pelos cambistas. E esses ninguém remove!
Admito que é injusto que comerciantes sofram para manter seus comércios regularizados, com alta carga tributária, enquanto outros simplesmente instalam-se em espaços públicos estratégicos, de forma irregular e sem nenhuma preocupação legal ou sanitária. O que defendo é que instalações de décadas, tradicionais e de grande aceitação e benefício popular, não sejam simplesmente extirpadas desses locais, mas sim regularizadas, seguindo requisitos mínimos e factíveis. E que se proíba apenas novas instalações.



Concordo totalmente. E acrescento aí as bancas de jornais… em qualquer cidade que eu conheço elas se localizam em áreas públicas, como praças.
Não vejo problema algum no uso de áreas públicas, inclusive em novas áreas que venham a surgir, desde que tais quiosques paguem os devidos impostos e o uso da área.
No caso do garapeiro perto do cemitério, tiraram apenas o que tinha a Kombi fixa lá. O do Pastel da Amélia, que fica apenas algumas horas, continua por lá.