A polêmica em torno do livro didático adotado pelo MEC que “ensina a falar errado” serviu ao menos para deixar claro que o assunto deve mesmo ser debatido. Afinal, pelos comentários que costumo ouvir a respeito, fica evidente o tal “preconceito linguístico” denunciado pela autora do livro, além da absurda ignorância da opinião pública na distinção entre linguagens populares e a tal da “norma culta”. Isso mostra que ensinar a falar direito é o menor dos problemas da nossa educação. Antes é preciso ensinar a pensar direito!

De qualquer forma, o pitoresco da idéia da autora é que esse debate não tenha entrado para sua literatura como uma menção do que é aceitável, e em quais situações devemos nos preocupar ou não com a linguagem normativa padrão. Se bem entendi do que está no livro, ela tenta ensinar as regras da fala irregular!

Ora, me explica, como é que se ensina a falar “errado”? Quem é que define como eu devo “errar”? A essência da idéia da linguagem informal é o desapego às regras gramaticais, aos padrões, por uma fala mais cotidiana e fluída, utilizando uma comunicação que nasce e se propaga naturalmente em uma cultura regional.

A menos que seja para a criança aprender a falar igual ao Cebolinha, não faz o menor sentido estabelecer uma estrutura para a fala popular!


Nota adicional: vale ler a importante contribuição que meu amigo Yuri Amato, estudante de Letras da UFSCar, deixou no meu Facebook.

o livro tem um capitulo que trata da variaçao linguistica. é apenas UM capitulo, que nao ensina a falar “errado” , que NAO despreza a norma culta e, mais surpreendente, nem eh o unico livro assim. Na minha quinta serie meu livro didatico ja tratava a variaçao em meia pagina, mas tratava. Meu livro do colegial tem o primeiro capitulo só sobre isso (uma pena ser o primeiro capitulo, malemá visto no primeiro dia de aula e nunca mais). Li seu post e vc fala de “estabelecer regras pra falar errado”… existem varias concepçoes de gramatica, a mais comum eh a da prescritiva, ou seja, aquela que vem e diz o que é certo na lingua – tipo uma receita/prescriçao medica, que vem e determina como é. Porém, um conceito que tem mais simpatia dos linguistas eh o da gramatica descritiva, voce pega a lingua como ela é e descreve. O que a autora faz nao eh prescrever uma forma de falar errado para todos seguirem, ao contrario, ela descreve as regras vigentes na gramatica popular. Porque o cara que fala a variante popular, ainda que ele nao saiba que sabe a regra, ele sabe a regra! Se ele sempre fala “os livro massa tao em cima da mesa”, é uma regra pra ele botar o plural apenas no artigo e no verbo. Recomendo: http://migre.me/4DV40 e http://www.abralin.org/noticia/alab.pdf além de obviamente o contato com o livro didático que foi super mega hiper blaster distorcido por essa midia vergonhosa. Nem o CQC foi capaz de fazer uma matéria decente sobre o caso.

anderson

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