Eu sempre acreditei no talento como um mero atalho, pois em quase tudo que alguém se proponha a fazer, esforço e muito treino são mais importantes e levam aos mesmos resultados, ainda que se tome o dobro, o triplo do tempo, ou mais.

Foi assim, por exemplo, que eu, um descoordenado motor por excelência, consegui tardiamente me adaptar a uma caligrafia legível, e aprendi, ainda que toscamente, a tocar violão.

Com a maturidade, no entanto, entendi que há coisas para as quais não se dá jeito. O Souza, por exemplo, nunca vai se tornar um jogador de futebol, por mais que treine. Eu nunca serei criativo, até porque, criatividade não se treina (embora dê pra aprender técnicas que enganem bem). E não, definitivamente, não conseguirei me tornar um cantor.

Essa última constatação foi sem dúvida a mais difícil de aceitar. Sempre fui apaixonado por música, sempre gostei de cantar, mais ainda depois que comecei a tocar violão, e sempre/definitivamente fui/serei desafinado. E olha que tentei…

Há cerca de dez anos, após mais de um ano e meio fazendo aulas de violão, resolvi que queria e precisava aprender a cantar, treinar um pouco a voz. Afinal, o grande barato do violão em relação a outros instrumentos (salvo piano/teclado) é sua autonomia completa. Um baterista não funciona sem uma banda. Um gaiteiro (estou falando do instrumento de sopro, viu gaúchos?) pode fazer uma bela melodia sozinho, mas ou ele toca, ou ele canta… Já o violão permite melodia, ritmo e voz feitos por uma única pessoa. Mas voltando ao assunto, resolvi então entrar para um curso de Técnica Vocal, na mesma escola de música em que fazia violão. Desisti, após oito meses ouvindo o professor dizer: “bota a voz pra fora”…

Nota: foi comum, em toda a minha vida, e até hoje, ouvir essa expressão, “bota a voz pra fora”. Ou então as pessoas me dizerem que eu “falo pra dentro”. Eu não sei bem como isso funciona. Se a voz já vem de dentro, como eu consigo enfiá-la guela abaixo novamente?

Mas entendo o que eles querem dizer. E acho que meu modo de falar é fruto da timidez que sempre tive (mais aguda quando eu era menor). Como mecanismo de defesa, passei a falar pouco, quase nada, e quando falava era baixo, “pra dentro”, apenas pra cumprir a obrigação da comunicação, mas sem fazer muita questão de ser escutado.

Eu não me lembro se fui eu que desisti realmente, ou se o professor é quem desistiu de mim. Lembro-me dele, algumas vezes, questionando se eu não poderia estar “travado”, fisicamente, por conta do serviço militar (foi o ano do meu Tiro de Guerra).

Acredito que meu problema seja sim físico, mas vai além de um esgotamento ocasional. Ou talvez seja psicológico. Mas é intrínseco! Eu falo assim, “pra dentro”! E, na hora de cantar, minha voz continua saindo como sempre saiu, com as mesmas travas e a mesma sonoridade abafada.

Recentemente, por algum motivo que nem sei bem ao certo qual é (já que a fase de sonhar ser cantor já passou faz tempinho), essa característica começou a me incomodar mais. Aliás, não sei se “incomodar” é a palavra, mas passei a me questionar se eu não poderia trabalhar melhor isso. Não só para o canto, mas para melhorar a comunicação com as pessoas, para ter uma apresentação melhor, e etc. Aí veio a dúvida: procuro um fonoaudiólogo ou um psicólogo?

Fiz algumas pesquisas no Google. Encontrei a técnica da caneta na boca, e uma outra que envolvia sentar de cócoras (taí outra coisa para a qual treino não resolveu meu problema, sentar-se de cócoras), mas o que mais pareceu funcionar, pelo menos na hora de cantar (isso sempre trancado no quarto com meu violão, que fique claro), foi a idéia de soltar o ar pelo nariz. Ou algo assim, não sei explicar.

Mas tudo isso foi pra dizer que, ainda que não tenha mais pretensões musicais, tenho pensado seriamente em voltar a fazer um curso de Técnica Vocal. Talvez agora que conheço melhor os meus problemas e minhas limitações eu obtenha mais êxito na tentativa de liberar a minha voz. 🙂

anderson

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