Não me levem a mal, mas eu não consigo contribuir com essas campanhas de arrecadações para vítimas de enchentes e deslizamentos, já tradicional em todo Janeiro brasileiro. Nada contra quem o faz, pelo contrário, é bom que exista tanta gente mobilizada por isso – e talvez esse seja mais um motivo para minha pouca sensibilidade ao tema.

Também não é egoísmo, tanto que, muitas vezes, a mesma contribuição que eu faria a essas campanhas fluminenses, eu acabo fazendo por aqui, de forma mais direta (e a eficácia ou não disso já merece debate a parte).

A questão é que me incomoda demais toda a situação em torno dessas arrecadações sazonais. É quase uma industria mobilizada para assistencialismo em todo verão. Uma industria que sobrevive necessariamente da desgraça alheia! E quando há muita gente ganhando com as desgraças, é sempre bom ficarmos com receio. É mais ou menos como as teorias malucas (mas não improváveis) de que roubos e assaltos não diminuem porque há muito dinheiro envolvido no mercado de seguros…

Mas o que mais vem chamando minha atenção desde 2010, e com muito mais força com a tragédia na região serrana do Rio agora em 2011, é o que chamo de beneficência publicitária. Uma modalidade que, não sei se é proposital ou involuntária, mas certamente não é ingênua.

  • “Compre na empresa X e 30% será revertido às vítimas dos deslizamentos”. Perceba, não há caridade aqui, e sim o uso da tragédia para alavancar as vendas. Uma promoção com apelo social/humanitário. “Seja bom, compre nossos produtos”.
  • “A loja Y estará recebendo doações para as vítimas da enchente no Rio. Nossa, como a loja Y é legal! Vou lá fazer a doação e aproveitar para fazer umas compras. Gostei deles, voltarei sempre.
  • Sites de compra coletiva aderiram à campanha. Você compra um cupom de R$ 5,00 (por exemplo), e o dinheiro é todo revertido para às vítimas. Claro que, para fazer isso, você terá que se cadastrar no site deles, conhecer os procedimentos de compra e pagamento, receber futuras ofertas… E o que eles dão em contrapartida? A estrutura do site? Um espacinho para publicar a promoção?

Nem entrarei no mérito da cobertura sensacionalista da imprensa, com apelo emocional extremo, pois isso já não é algo sazonal, vinculado às enchentes e deslizamentos cada vez mais frequentes em nossos verões. Estende-se pelo ano todo, com tragédias variadas. Também não cabe aqui considerar os abutres profissionais que se infiltram nessas campanhas para desviar produtos e dinheiro, porque aí já é coisa de bandido, e isso tem em todo lugar e em toda atividade, infelizmente.

Enquanto isso, sabe como contribui o principal responsável por todos esses problemas? O Poder Público que não oferece moradia em áreas planejadas, que não leva infraestrutura a áreas desabitadas, e que sequer dá educação para as pessoas que não compreendem os riscos a que estão submetidos? Enquanto você assume a responsabilidade para o auxílio aos alagados e desabrigados, sabe o que o Poder Público oferece? Disponibilização de parte do FGTS para as vítimas.

Mas peraí, o FGTS não é um dinheiro da própria pessoa que fica retido nos cofres do governo? Pois é…

Eu imagino que se tivesse acesso direto às famílias vitimadas, faria o possível para auxiliar no que pudesse. Sem intermediários. Como gosto de fazer por aqui (não que faça muito, gostaria de fazer mais). Mas assim, de longe, com tanta gente querendo faturar em cima… Fica difícil!

Recomendo também as seguintes leituras sobre o tema:

Notas adicionais

  • A ACISC (Associação Comercial e Industrial de São Carlos) anunciou o lançamento de campanha para arrecadar doações para as vítimas da chuva. Detalhe: haverá eleição para a presidência da associação na próxima sexta, dia 21, e o atual presidente, senhor José Eduardo Casemiro, é candidato a reeleição compõe uma das chapas candidatas (nota posterior: a chapa dele foi a eleita). Qualquer coincidência é mero oportunismo.
  • A última do Governo Federal foi prometer antecipar um mês de benefício do INSS para as vítimas no Rio. Ou seja, mais dinheiro do próprio povo socorrido! Reinventaram a auto-ajuda! Imagina como será a vida dessas pessoas “depois da tempestade”, sem FGTS, sem INSS, sem casa… E ainda sou obrigado a ver o ministro pagando de caridoso: “Nesse momento trágico, não poderíamos deixar de ir ao encontro das pessoas que estão precisando”. Aham!

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anderson

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