Estive pensando…

Idéias sortidas e abstratas, filosofias de buteco, crônicas e trovas eventuais.

Alternativas às cotas

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De novo esse assunto… Como está em julgamento pelo STF a constitucionalidade das cotas universitárias, não resisti a comentá-lo novamente. Já abordei o tema de forma direta há muito tempo atrás, ainda no blog antigo. Desde então, já mudei demais minhas opiniões (por isso preferi nem linká-lo aqui), muito devido à maturidade e aos intensos debates e leituras sobre o tema. No entanto, reafirmei minha posição contrária às cotas ao citá-las, de forma indireta, recentemente por aqui.

Vou admitir pela primeira vez: já não sou totalmente contra as cotas. Assim, eu entendo a razão delas existirem. Entendo as intenções, e a maioria dos argumentos de quem as defende. Com alguns até concordo, outros não, principalmente quando tentam resumir o debate a provar que o preconceito ainda é forte no país, e que isso por si só justifica a política adotada. Só que eu ainda sou daqueles que entendem que, se o preconceito existe – e existe muito claramente, não é preciso três laudas com números e números para provar isso – não podemos ignorá-lo, mas também não devemos aceitá-lo! O objetivo final deve ser, sempre, que todos sejam visto como iguais! Claro que respeitando as origens culturais de cada povo, mas indissociando as raças. Até porque, o conceito de raça já me parece mais e mais anacrônico.

Isso não quer dizer que precisamos esperar mais 512 anos para agir. As ações podem e devem ser imediatas, ou negros e índios assistirão calados mais algumas gerações de injustiças, que possivelmente se perpetuariam. Mas então, como agir, a curto e médio prazo, sem intensificar as distinções de pessoas pelo tom de pele?

Eu tenho algumas ideias. Se são boas e eficazes ou não, eu não sei, mas me parecem mais interessantes socialmente, e gostaria de ao menos poder debatê-las, em algum momento, sem a ojeriza dos pró-cotas.

A ideia mais básica que defendo desde 2001, quando ouvi pela primeira vez sobre a proposta das cotas, é a da criação de cursos preparatórios pré-vestibulares. Pois entendo que reservar cotas diretas nas universidades é pressupor colocar lá pessoas que não tem ainda a mesma base educacional que os demais aprovados. E para os que acreditam que, depois que entrarem, os cotistas terão total capacidade de acompanhar o ritmo de seus cursos, então vão concordar também que se um ou dois anos de cursinho não vão sanar todo o déficit educacional desses, no mínimo servirão como uma sustentação maior. Além de ser uma oportunidade quase única de dar a essas pessoas formação e espírito crítico muito mais amplo do que teriam em suas graduações específicas.

Já existem muitas iniciativas de cursinhos populares espalhadas pelo país, e são louváveis. Eu mesmo me beneficiei de um desses, e foi uma das melhores experiências de vida que já tive. Mas não basta. O que eu proponho é que existam alternativas públicas, governamentais, e de qualidade igual ou superior aos melhores colégios privados do país, e que sejam voltados exclusivamente à pessoas de baixa renda. Ou seja, nem seria necessária a dissociação de pessoas por tons de pele para isso. Embora seja bastante razoável pensar em algo mais direcionado à população negra e indígena, nesse sentido, o que poderia ser feito de forma menos discriminatória.

Essa alternativa poderia, ao médio e longo prazo, fundir-se ao ensino médio público (que já deveria ter essa qualidade garantida, mas não tem), e, eventualmente, com acréscimo de trabalhos orientados à capacitação – diferente do modelo de ensino profissionalizante atual – para que não haja retardo na inserção desses jovens no mercado de trabalho, em comparação aos mais abastados.

Associado a isso, seria salutar que fossem desenvolvidos programas de bolsas de estudo para investir nesses jovens a fim de que se dediquem exclusivamente às suas formações. É preciso entender que muitos deles tem as alternativas populares que mencionei acima, mas que simplesmente não podem cursar pois possuem realidades difíceis, ou simplesmente porque não vêem perspectivas. Não é nenhum absurdo o que estou pedindo, afinal, se o Estado não pôde garantir educação de qualidade para todos, para deixá-los em condições de igualdade, cabe ao mesmo agora suprir essa falha e investir em seus jovens. E se já há programas de distribuição de renda eficientes no país, criar um que seja associado à educação e com retorno a médio prazo tão forte é algo que deveria ser considerado com prioridade!

Se com tudo isso a elite alva ainda permanecesse prevalecendo esmagadora nas melhores universidades, aí talvez as cotas pudessem ser definidas, mas considerando todo esse processo preliminar. Ou seja, a cota seria reservada aos que participaram desses programas e cursos sugeridos.

Em paralelo a tudo isso, e ainda mais importante, continua sendo mandatório o intenso fortalecimento da educação de base, não só para melhorar a qualidade da educação dos marginalizados, mas principalmente para melhorar o tipo de informação que é passada aos privilegiados. É similar à ideia que defendi para a lei das palmadas: precisamos, acima de tudo, formar uma geração que seja intolerante ao preconceito, para que nada disso seja necessário.

Não sei se são alternativas viáveis, concretas, ou sequer se são boas. Talvez hajam outras melhores. A proposta é justamente ampliar este debate, fugindo das mesmices da negação e prova da existência de preconceitos. E não ser contra apenas porque “fere o direito de outras pessoas” – como se os direitos dos cotistas fossem respeitados em algum momento em nossa sociedade – mas sim propor alternativas que não nos façam regredir no pouco avanço que já tivemos para extirpar essa tolice que é o preconceito, de qualquer espécie.

Sobre o que está em pauta no STF, deve ser facilmente aprovada a legalidade das cotas, o que considero correto. Não discuto (pelo menos não mais) se as cotas ferem ou não a constituição, apenas se são boas alternativas para o problema. E eu ainda entendo que existem melhores.

 

Homem Primata

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Seja na carreira ou na vida mesmo, nossa cultura nos ensina desde cedo algumas regras básicas para sobrevivência. Nasce com um “faça a sua parte”, um “não seja bobo” e um “não confie em ninguém”, mas logo evolui para algo como “o mundo é dos espertos”, “garanta sua parte, doa a quem doer” ou um “antes ele do que eu”.

É difícil afirmar se há dolo ou perversidade. Muitos acreditam agir com verdadeiro senso de justiça, talvez até busquem isso, quando na verdade estão apenas seguindo seus instintos. Deve ser da natureza humana. Talvez venha das lutas por um punhado de fogo, uma fração de terra ou um prato de comida. Como hoje o que parece ser realmente vital aos homens é o dinheiro, é por ele que se engalfinham. “Meu pirão primeiro”.

Eu sou humano, logo, sujeito a todos esses instintos. Tenho minhas ambições, pequenas ou grandes, mas a forma como prefiro buscar meus objetivos não passa, e pretendo que nunca passe por cima da cabeça de outras pessoas. Porque eu não gosto de atalhos. Não acredito neles. Acredito sim em trabalho, esforço próprio. Merecimento. Se algo me é negado, não importa com que motivação, o que vou fazer é arregaçar as mangas e investir em mim, em meu desenvolvimento pessoal, até que o meu valor seja, não apenas reconhecido, mas inequívoco. Porque isso me torna mais independente, e menos sujeito ao “mundo dos espertos”.

Se há quem prefira outro caminho, e esteja disposto a sobrepujar qualquer coisa por isso, vá em frente. Não tomará nada do que é meu, posto que não quero nada que não mereça de forma inequívoca. A única coisa que eu verdadeiramente não aceito é a hipócrita justiça dos mesquinhos. Aquela justiça dos que se fartam de pão, e com o bucho cheio oferecem as migalhas aos pobres. Para esses talvez eu seja um tolo. Mas quando reconheço um deles – e não é difícil – sei exatamente em quem não confiar. Essa lição eu aprendi.

 

Casar engorda

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Sempre ouvi dizer que as pessoas engordam depois que casam. Claro que não são todos (e os magrelos de plantão não precisam se revoltar), mas é uma tendência. Só que a idéia passada junto com essa “brincadeira” (ou “constatação”?) é de que os recém-casados engordam por puro relaxo! Algo do tipo “já estou casado mesmo, dane-se”.

Não é assim.

Eu não demorei três meses após casado para ultrapassar 10 kg além do peso em que estava no dia da boda. Vale ressaltar que aquele também não era meu peso real, já que recorri a alguns artifícios às vésperas do casório para caber no casacão. Mesmo assim, foram aí uns seis quilos, no mínimo, logo de cara. E vieram mais uns três depois, ao longo dos dois anos seguintes.

Eu não decidi que, depois de casado, “tanto faz”. Talvez tenha me cansado de tanta dieta, sobretudo depois dos radicalismos pré-nupcial. Mas ninguém quer viver obeso. E ninguém vive de dieta! E nem engorda por falta delas. O que nos faz assumir o peso que ostentamos, sobretudo a longo prazo, é a rotina alimentar que adotamos! E é essa rotina que se altera completamente no matrimônio.

Talvez alguns tenham a sorte de só ter alterações positivas (do ponto-de-vista nutricional) após casar-se. Mas provavelmente para a maioria é como foi para mim. Você passa mais tempo em casa (porque quer ou porque precisa, afinal, tem novos afazeres); passa a preparar comida para dois, sempre tentando agradar o máximo possível o paladar do cônjuge; ou, em muitos casos, acaba de deixar a casa da mamãe, e o repertório na cozinha limita-se a macarrão e ovo frito – ou outras coisas fritas ainda mais calóricas. E os números dos serviços delivery preferidos, é claro!

Para quem já morava sozinho, também há diferenças. Por exemplo, passar uma refeição batida se não houver nada fácil para comer não era nada demais. Mas, casado, você não vai deixar a pessoa amada com fome! Mesmo que ela diga que não quer comer nada!

Aliás, outra situação bastante comum é essa: você não está com fome, mas a outra pessoa está. Ou você não teve uma vontade súbita de um bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro, mas ela(e) sim! Aí vocês fazem, e claro, você come!

Isso para não falar no futebol que deixa de jogar (tudo bem, não era o meu caso), na academia que abandona porque “vou fazer em casa, para ficar mais tempo perto da(o) esposa(o)”, mas nunca faz, e etc.

Depois de meses nessa rotina você está um bolo fofo, e as pessoas vêm dizer que você “desandou depois que casou”. Isso não é relaxo, é amor! De um jeito meio torto, mas é!

 

A boa notícia é que, sabendo que o problema é esse, para corrigi-lo basta cuidar de criar novos hábitos, estabelecer uma rotina alimentar mais saudável. E aí o benefício (e sacrifício) também é compartilhado. :)

Guia prático de como escrever um best-seller

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Que feio, depois de mais de um mês sem escrever no blog, estou apelando para um texto velho. Este foi escrito no blog antigo, o Rapsódia, em 12/04/2005. Mas há pelo menos duas boas razões (desculpas) para eu requentá-lo aqui, agora. O primeiro, óbvio, é pra tirar a poeira de cá e ir aquecendo para voltar à ativa. O segundo motivo é que estou preparando um novo texto para o Mondo Redondo com temática parecida: de que é feito um grande escritor. Menos irônico que o texto abaixo, mas nem tão sério quanto parece. Aviso aqui quando estiver pronto lá.
  • O ponto de partida é a única etapa realmente criativa. Pense numa sacada legal… Algo como uma analogia, ou algo “denorex” (parece, mas não é…). Pode ser algo advindo de uma anedota mesmo, com potencial a ser explorado, ou alguma brecha não explicada nos livros de história. Neste ponto não se preocupe com o enredo.
  • Delineie sua história com tudo aquilo que as pessoas gostariam de ouvir. Fale mal de algo que elas queiram se livrar, massageie seus egos, dê-lhes novas (boas) perspectivas.
  • Com o arcabouço da sua história traçado, agregue a ela fatos reais. Misture realidade e ficção aleatoriamente e mexa bastante. O ponto ideal é quando estiver imperceptível, no texto, o que é fato e o que é criação imaginativa.
  • Adicione ainda alguns elementos que façam parecer que você está transmitindo algum tipo de informação/cultura útil aos leitores. Deixe que eles pensem que estão ficando mais inteligentes ao lerem seu livro.
  • Envie seu trabalho para uma editora especializada em marketing. De preferência uma daquelas que compra toda a primeira tiragem só para o livro aparecer na lista dos mais vendidos.
  • Venda o livro como uma ficção com um pouco de verdade, ou como verdade com um pouco de ficção… Mas demonstre confiança no que diz. As pessoas adoram acreditar no que lêem.

A morte do parágrafo

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Há uma tendência crescente entre jornalistas-blogueiros.

A de escrever tudo assim…

Uma coisa por linha.

Sem parágrafos.

Ou com todas as orações tranformando-se em um novo.

Eu não sei quem começou com isso.

Mas virou moda.

Gente boa, que admiro, ou admirava, agora escreve assim…

Talvez porque sintam-se mais inteligentes.

Querem reinventar a escrita.

Dizem que torna a leitura mais prática pra Web.

Não torna.

É chato!

É sem sentido!

É linguisticamente pobre.

E nem é correto.

Embora eu não seja nenhum especialista para dizer isso.

Quebra o fluxo natural da leitura.

Tira a coesão do texto.

Voltem para o ensino básico.

E reaprendam as regras para quebra de parágrafos.

E parem com essa frescura do cacete!

Madrigal

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Meu texto preferido dos vigésimos terceiros dias de setembro, por razões óbvias, desde 2004, quando o publiquei no Mondo Redondo.

A julgar por tua beleza natural,
pela fragrância que emites silenciosa,
pelo néctar que ofereces ao admirador,
ou pelas cores que de ti a mim refletem,
poderia afirmar que és a mais bela flor,
fruto da Primavera, que com ela nasceste,
e a ela concedeste mais beleza e vida.

Mas revelou-me um sonho primaveral,
por um arcanjo de feição formosa,
que era invertida a intenção do Criador.
“Pela autoridade que a mim competem,
e pela afeição que demonstraste a teu amor,
conto-te que cada Primavera floresceu
em celebração ao nascer de tua querida”.

Primavera

Fat is the forgotten black

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Estava acompanhando um tópico por aí que seguia mais ou menos assim. Apresentaram uma piada, até que bem legal, e todos riam, até que alguém surgiu dizendo:

- Ah! Mas quem escreveu isso foi fulana.

- E o que tem? A piada não é boa?

- Mas é que fulana é gorda…

A sequência não foi exatamente essa, mas resumindo, foi mais ou menos o que quiseram dizer.

Aí, como se fosse uma licença depreciativa, todos os debatentes começaram achincalhar a pessoa, afinal, ser gordo, ou ter sido gordo um dia, autoriza os outros a te ridicularizarem, fazerem piadas com você e traçarem o perfl completo de sua personalidade, ainda que quem faça tudo isso não lhe conheça. E não te dá direito de rebater a nada, pois está em condição inferior: a de ridículo. Ou quiçá vagabundo, pois já li de gente por quem até tenho certo apreço e respeito que obesidade é intolerável, pura ausência de força de vontade.

O país parece estar aprendendo a lidar com diferenças étnicas, sexuais e raciais… Quer dizer, não acredito piamente que as pessoas extirparam esses preconceitos de dentro delas, já que em conversas privadas você ainda escuta o mesmo tipo de piada ridícula e ultrapassada que ajudou a massificar essas idéias que para elas parecem ainda serem verdades, mas ao menos já aprenderam que não podem ou não devem expressar isso publicamente. Porém, ridicularizar qualquer gordo só para não perder a piada continua valendo.

Não pretendo que se inicie nenhum tipo de movimento pró-gordinhos ou contra o preconceito pelo tamanho da circunferência abdominal, até porque quase toda iniciativa a favor de minorias (e os sobrepesos nem são tão minoria assim) acaba ficando um saco, ou criando aberrações como cotas segregacionistas ou carnavais fora de época. Nem tenho nada contra brincadeiras oportunas, pelo contrário, eu mesmo vivo fazendo chacota com meu peso. Gordinho sofre, brinco. Só não posso deixar de achar bizarras ou hipócritas algumas situações, do tipo:

  • Aquela pessoa que bota no Facebook frases como “campanha pela vida: cada um cuida da sua”, e depois vai dar aquele “toque de amigo”, do tipo “engordou hein?”, como se o gordo não tivesse espelho em casa.
  • Diálogos que se desenrolam mais ou menos na base do: “É bonita? “Não, é gorda”, como se fossem coisas necessariamente mutuamente excludentes, e como se gosto não fosse subjetivo. Eu, por exemplo, não gosto de mulher musculosa (músculos enrijecidos em excesso).
  • A mesma indústria de consumo que trata de te empurrar junk food é incapaz de produzir roupas de tamanho adequado para todos os biotipos. Tente, por curiosidade, entrar numa C&A ou Pernambucanas da vida e encontrar uma camiseta maior que GG… Depois me conta.
  • Fala-se tanto em acessibilidade aos portadores de deficiência e continuam disponibilizando o mesmo tipo de assento estreito para todos. Eu já vi, em ambiente de trabalho (não foi comigo, que fique claro), entregarem uma cadeira que não durou uma semana para um funcionário obeso, e quando este foi reclamar falaram que a culpa era dele, por ser tão gordo!

Ah! Mas claro, deficiência física não é uma opção. Ser gordo é, e é uma vergonha! Pelo menos é o que fazem parecer.

Quem é o autor da próxima novela das nove mesmo? Acho que vou enviar uma cartinha sugerindo incluírem um casal de gordinhos e suas mazelas no enredo, sem que façam deles o núcleo cômico da trama. Parece ser a receita para fazer a população refletir sobre respeito às diferenças (ou pelo menos deve ser, dada a insistência em inserções de debates sobre “minorias” no plim-plim).

Nota: o título deste texto é em alusão à expressão Fat is the New Black. Léo Jaime escreveu em seu blog um texto interessante com essa mesma expressão traduzida (“Gordo é o novo preto“), em Março passado. Mas eu mudei a essência dela porque de “novo” esse preconceito tem muito pouco.

Love, Love, Love…

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The Beatles - Love Is

Defendo-me então dos que me acusarem de infidelidade. Pois, quem pode afirmar não se sensibilizar com tanta beleza vária? Sim, me apaixono todo dia, e a cada dia por uma diferente. Em meu canto, e em meu pranto, cada uma delas tem seu valor. Se hoje eu pensar mais em fulana, ou em beltrana, terá sido por influência de algumas horas de convivência, ou de algum pensamento turvo que sobressalta no meio da noite.

Tolo do que acha que eu deveria amar biunivocamente. Amo a todas, e em cada dia amo mais uma ou outra, e nem por isso cada uma das anteriores terão menos valor. Todas me aprazem, todas permeiam em minha mente e me conduzem em delírios vociferozes. Ainda que peçam que eu me decida por uma única entre todas as belas, será meramente um formalismo. Em meu sonho estará sempre a amada do dia, e mesmo que seja a mesma eleita por vários dias, nunca será única, pois sou sensível à beleza de todas as canções dos Bealtes…

Deixo cá minha homenagem à amada do dia.

Here, There and Everywhere
Lennon/McCartney

To lead a better life,
I need my love to be here.

Here, making each day of the year
Changing my life with a wave of her hand
Nobody can deny that there’s something there.

There, running my hands through her hair
Both of us thinking how good it can be
Someone is speaking but she doesn’t know he’s there.

I want her everywhere
and if she’s beside me I know I need never care.
But to love her is to need her

Everywhere, knowing that love is to share
each one believing that love never dies
watching her eyes and hoping I’m always there.

I want her everywhere
and if she’s beside me I know I need never care.
But to love her is to need her.

Everywhere, knowing that love is to share
each one believing that love never dies
watching her eyes and hoping I’m always there.

I will be there, and everywhere.
Here, there and everywhere.

Nota: Texto originalmente escrito em 12/07/2004 para o site Mondo Redondo. Só que na ocasião a “amada do dia” era Across The Universe.

Eu não escrevo bem, é TOC

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Eu não acho que escrevo tão bem, e essa convicção aumenta quando leio tantas pessoas que admiro. Meus conhecimentos ortográficos, gramaticais e sintáxicos são limitados, e ando dedicando pouquíssimo tempo à leitura formal – o que invariavelmente afeta a qualidade das minhas produções textuais. Mas já recebi elogios, inclusive de pessoas que me são muito caras e as quais agradeço imensamente. Elogiam sobretudo a correção do que escrevo, a atenção aos detalhes para que eu falhe pouco, mesmo em mensagens informais.

Sinto frustrar essas pessoas agora, mas acabo de identificar isso como mais um sintoma de algo que tem se tornado evidente e intenso em mim. Eu tenho TOC!

É comum em portadores do Transtorno Obsessivo-Compulsivo ficar verificando as coisas, e sentir extremo desconforto ao ver algo “desalinhado”. Eu apresento isso das mais diversas formas. E parece que foi pior no período em que morei sozinho, antes de me casar. A mais bizarras das obsessões/compulsões era a necessidade de manter os interruptores de lâmpadas alinhados, o que me fazia, às vezes, atravessar um cômodo só para apertar o interruptor do outro lado e manter todos, do lado de cá, apertados para o mesmo lado.

Acontece algo parecido quando estrou escrevendo. Geralmente escrevo uma frase, e logo releio-a para ver se nada ficou fora do lugar, e se a idéia está coesa. Mesmo assim o produto final fica uma coisa escandalosamente cheia de falhas, o que é natural. Mas aí, quando qualquer pessoa normal apertaria a tecla ‘Enter‘ e mandaria a mensagem – afinal às vezes é só um bate-papo informal, ou um comentário em alguma rede social – eu resolvo reler. E de novo, e de novo. E a cada leitura, novos erros, e simplesmente não consigo deixar como está. Tenho que alterar, ajustar, alinhar… Isso é TOC!

Eu poderia tirar vantagem disso, e já que tenho essa compulsão, usa-la a meu favor e escrever melhor. Mas aí esbarro em dois problemas. O primeiro são as limitações do português. Eu só posso identificar um erro se eu conhecê-lo. E mais do que isso, eu normalmente não notarei algo que eu não esteja treinado para identificar. O segundo problema é o tempo…

Me lembro que uma vez, logo após postar um texto neste blog, conversava com meu primo Leandro e ele perguntou quanto tempo eu levava, em média, para conceber e escrever um algo aqui. Eu acho que menti, e disse que demorava em torno de uma hora, se não tivesse que fazer nenhum tipo de consulta ou tratamento de imagem, e etc. Menti porque já achei absurdo uma hora para uma lauda. Jornalistas provavelmente morreriam de fome se levassem essa proporção de tempo em coisas maiores e mais sérias. Mas a verdade é que normalmente levo até mais do que isso! E a coisa só não fica pior porque, depois de um tempo eu me dou conta do tempo que estou “perdendo” – e quem me conhece sabe bem como tempo anda escasso – e simplesmente desisto de novas releituras.

Mas os erros continuam lá… E se eu resolver reler mais uma vez daqui uma semana, um mês, um ano, vou ser novamente acometido por uma absurda ansiedade, só que dessa vez somada a um leve desconforto por aquilo ter ficado ali “desalinhado” por tanto tempo.

Sócrates era programador

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Nota inicial: como tenho muitos amigos/leitores corinthianos, e costumeiramente falo de futebol por aqui, vale o alerta de que o referido no título deste post não é o Doutor, o Magrão, aquele que talvez seja meu maior ídolo na história do alvinegro do Parque São Jorge, não só pelo que jogou mas principalmente pelo que representou para o clube e para o contexto social do início dos anos 80. No caso, estou falando do filósofo grego mesmo. De qualquer forma, é só uma referência inicial, e não o assunto central deste texto.

Sócrates era programador, ou pelo menos é o que me parece sempre que começo a estudar uma nova técnica, uma nova ferramenta, uma nova metodologia, e etc. Só sei que nada sei (teria dito o filósofo), e quanto mais me aprofundo nos livros, exemplos e tutoriais, mais ciente eu fico do tamanho da minha ignorância! Mais perdido me sinto.

É verdade que os profissionais de TI ainda carregam o fardo de os leigos acharem que, por sermos da área, saberemos resolver qualquer problema que eles tenham ao manipular qualquer dispositivo que opere com sinais de dois bits. O que até poderia fazer algum sentido 20, 30 anos atrás (duvido muito), mas que hoje só me faz lembrar daquela perguntinha básica: e se os motoristas fossem contratados como profissionais de TI?

Não dá para saber bem sobre muitas coisas em TI, mas ainda que tudo ficasse restrito a única ferramenta, a uma única linguagem de programação, num único paradigma, ainda assim, toda a literatura, todas as possibilidades de arquiteturas, patterns e frameworks disponíveis e atualizadas e distribuídas em novas versões quase que diariamente, eu não daria conta de conhecer o suficiente para estar certo de fazer sempre as melhores escolhas. Até porque, mesmo as melhores escolhas de hoje (se é que isso existe) tornam-se obsoletas muito rapidamente.

Agora imagina eu ter que trabalhar todos os dias com pelo menos duas plataformas (ASP.NET e PHP) totalmente diferentes, sem contar as infindáveis ferramentas e tecnologias orbitantes (SQL Server, MySQL, PostgreSQL, Javascript, JQuery, AJAX, MVC, WebService, ORM, TDD, DDD, JSON, XML, XSL, CSS, RSS, SOA, REST, e o raio que o parta)… Eu não dou conta!

Um erro comum que costumo cometer é achar que, por ignorar tanta coisa, o outro está sempre na minha frente. Dia desses vi um dos caras mais influentes num determinado grupo que participo apanhando para configurar o teclado de seu notebook! Ou seja, há menos diferença cognitiva entre as pessoas do que diferenças de valores, de objetivos, culturais e de experiência de vida. É por isso que respeito os mais velhos, pois mesmo os que têm menos estudo, em algum ou em vários assuntos são muito mais sábios do que eu. E é por isso também que não posso entender ou aceitar a arrogância humana.

Conhece-te a ti mesmo (outra frase atribuída a Sócrates), e verás quão ignorante é!

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