Estive pensando…

Idéias sortidas e abstratas, filosofias de buteco, crônicas e trovas eventuais.

Think different

Pense diferente

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Durante minha graduação, trabalhei por algum tempo num projeto de pesquisa de Iniciação Científica. O estudo era sobre Algoritmos Evolutivos (ou Genéticos), uma subárea de Inteligência Artificial que consiste, a grosso modo, em buscar uma solução muito boa para um problema muito complexo que não exige um resultado preciso.

Algoritmos Evolutivos

Baseado no processo evolutivo natural, os AEs classificam possíveis soluções do problema que se propõem a otimizar, selecionam as melhores, e, a partir delas, geram mutações, soluções combinadas, que geram um novo conjunto de possíveis soluções, dando início a um novo ciclo do processo. Essa técnica é muito utilizada para projetos de rede (de computadores, elétrica, de dados, etc.), onde múltiplos “pontos” ou “malhas” podem se interconectar de diversas formas, gerando redes completamente diferentes, produnzido resultados mais ou menos satisfatórios, dependendo do resultado esperado. Os AEs são usados, inclusive, em uma outra subárea de IA, as Redes Neurais Artificiais, baseada no processo cognitivo humano.

Estudar AEs me ensinou muito mais do que técnicas para otimizações computacionais, ou qualquer conhecimento correlato da biologia. O que aprendi com essa e outras experiências de vida é que a evolução se alimenta das diferenças. Quando você trabalha sempre em cima da mesma gama de informações, por mais que evolua dentro dela, estará limitado. Enquanto quando insere uma informação nova, de natureza diferente, gera novas combinações de idéias.

É como acontece em nossa rede de neurônios. Um conjunto enorme de informações e sensações se aproximam e podem ou não se conectar, através das sinapses. A chance desses estímulos resultarem em diferentes conexões sinápticas aumentam conforme aumenta a diversidade da natureza das informações e sensações absorvidas.

Tenho percebido uma grande tendência para o pensamento especializado, de certa forma até estimulada por “especialistas” (mas especialistas em quê?). Dizem que, diante de tanta informação que nos é transmitida, e cada vez mais, é importante não querer saber sobre tudo, mas ter um conhecimento aprofundado sobre um assunto específico.

Pode ser que essa idéia esteja produzindo profissionais especialistas melhores. Tenho dúvidas. Mas certamente não produz pessoas melhores, capazes de irem além de escolher o melhor método para resolver o seus problemas, e pensarem no propósito do que estão fazendo e seu desencadeamento global. Ou simplesmente pensarem em situações absolutamente a parte de seus contextos individuais, mas que ajude a aguçar novos sentidos, dando novas perspectivas ao indivíduo.

Claro que não é possível e nem conveniente querer conhecer sobre todos os assuntos, ainda que minimamente. Conheço pessoas de conhecimentos gerais impressionantes e sem desenvolvimento pessoal algum. Sem sucesso em nada. A alguma área, em algum momento de nossas vidas, temos que nos dedicar. Mas é importante o exercício de pensar diferente, seja em pequenas ocasiões, por exemplo, escolhendo argumentos opostos aos que acreditamos sobre um tema, mas principalmente através de hábitos que nos dêem uma formação cultural mais ampla e variada.

Think Different era o slogan de uma campanha publicitária da Apple (sempre as melhores) em 1997. O texto abaixo é de uma das versões do comercial de TV da campanha.

Isto é para os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os arruaceiros. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Os que vêem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniar. Sobre a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque as coisas mudam. Eles empurram a raça humana para frente. E enquanto alguns podem vê-los como loucos, nós vemos gênios. Porque as pessoas que são loucas o suficiente para pensar que podem mudar o mundo, são as que o fazem. – A Apple Inc.

engavetamento

Carrodependência e a Indústria do Caos

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Plorifera-se pelo país manifestações contra o aumento nos preços dos combustíveis. Protestos contra postos organizados via redes sociais, correntes de e-mail convocando a boicotar distribuidoras, aplicativos online para sinalizar os melhores preços, etc, etc.

Poderia me comover toda essa atitude popular e coletiva. O problema é a motivação individual indelével. Garantir que todos possam continuar andando sozinhos em seus carros, que caberiam quatrou ou cinco, a um custo que caiba no bolso do motorista. Esqueça. Não há futuro nisso. O transporte individual, sobretudo no Brasil, acelera forte rumo ao caos. E não há volta. Qualquer tentativa de atenuar os problemas decorrentes disso só levarão a novos problemas.

É muito carro! É insustentável! Só na minha cidade, cuja população gira em torno de 220 mil habitantes, a frota de veículos ultrapassa 140 mil! Arrisco dizer que há mais carros do que motoristas habilitados. Não por acaso, o transporte coletivo na cidade é considerado caro, ineficiente e de péssima qualidade.

Por que então não há mais investimento em transporte coletivo? Por que o uso de carros não é desestimulado? Porque nossa sociedade, e o Brasil em especial, está organizada hoje em torno dos automóveis.

Eu não tenho aqui dados estatísticos, mas vamos tentar dimensionar: quantas pessoas hoje sobrevivem, direta ou indiretamente, da indústria automobilística? Só nas montadoras são tantos empregos que municípios comumente travam batalhas fiscais a fim de atrair novas instalações, que rapidamente passam a ser a engrenagem econômica das regiões em que se instalam. E junto vem concessionárias/distribuidoras, oficinas, auto-peças, seguradoras, financiadoras, postos de gasolina, e uma infinidade de serviços, principalmente públicos.

E aí começamos a pensar quanto do nosso dinheiro é gasto para manter tudo isso. Não apenas o que deixamos no posto de gasolina, mas em todo o gasto público com infraestrutura de transporte, que hoje é o assunto número um de qualquer administração municipal ou estadual. Ou vamos negar que quase sempre julgamos nossos governantes pela quantidade de vias e pontes que fazem, pelos buracos que deixam de tapar, pelo efetivo de segurança que dispõem para problemas no trânsito, pelos pedágios e multas que cobram dos motoristas…

É tanto dinheiro envolvido que, não por acaso, o Brasil só se esquivou da crise mundial em 2008/2009 devido a incentivos fiscais para… Compra de veículos, é claro. Da mesma forma, outros países sucumbiram também pela crise na indústria automobilística. Guerras são travadas por combustível. Florestas são derrubadas para abrir espaço para biocombustível. Comida deixa de ser feita para a produção de biocombustível!

Já chegamos a este ponto? Vivemos para abastecer, e não o contrário? O que se chamava de “meio” de transporte agora é o próprio fim?

Santa Faustina

"Você é cristão? Acha que Deus ficaria feliz com você celebrando a morte?"

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Eu já havia tratado da morte de Osama Bin Laden nos drops do post anterior. Mas faltou comentar sobre a beatificação de João Paulo II, também ocorrida neste 1º de Maio. Deixaria passar em branco, não fosse a ironia da coincidência das datas e algumas leituras que me levaram a um estreito laço sobre todos esses fatos.

A primeira dessas leituras, que compartilharei aqui com vocês, teve grande repercussão durante todo o dia posterior à morte de Bin Laden. Foram declarações do jogador da NBA Chris Douglas-Roberts, do Milwaukee Bucks, sobre as comemorações dos americanos pela morte de Osama Bin Laden.

Isso é uma celebração? Seria o começo de uma grande guerra religiosa? Espero que não.

Eu sou o idiota? Você é cristão? Acha que Deus ficaria feliz com você celebrando a morte? Ou é sua religião, “Americano”?

Perdemos 919,967 de vidas para matar aquele único cara.

Levou 10 anos e 2 guerras para matar aquele… cara.

Custou para nós (EUA) aproximadamente $1,188,263,000,000 para matar aquele… cara. Mas estamos vencendo. Haaaa (Sarcamo)

Retirado do twitter de Chris Douglas-Roberts.

Se você não é cristão, não precisa se atentar à pergunta do título deste post, proposta por Douglas-Roberts. Mas se é, convido-o a uma reflexão.

Primeiro é importante lembrar que a escolha da data de beatificação de João Paulo II não foi aleatória. Ela aconteceu no 2º Domingo de Páscoa, quando se celebra a Divina Misericórdia, festa instaurada pelo então Papa João Paulo II, em 30 de Abril de 2000. Mesma data em que concluiu a canonização de Irmã Faustina Kowalska, iniciado em 1965 pelo próprio Karol Wojtyla, então Cardeal Arcebispo de Cracóvia.

Santa Faustina entregou sua vida pelos pecadores.

… O próprio Senhor Jesus Cristo começa a se manifestar à Irmã Faustina de um modo particular, revelando de um modo extraordinário a centralidade do mistério da misericórdia divina para o mundo e a história – presente em todo o agir divino, particularmente na Cruz Redentora de Cristo – e novas formas de culto e apostolado em prol desta sua divina misericórdia.

Trecho sobre a vida de Santa Faustina, retirado do site misericordia.org.br.

O Beato João Paulo II também dedicou sua vida à Divina Misericórdia, e deixou como principal legado a luta contra o mal pelo bem.

À humanidade, que no momento parece desfalecida e dominada pelo poder do mal, do egoísmo e do medo, o Senhor ressuscitado oferece como dom o seu amor que perdoa, reconcilia e abre novamente o ânimo à esperança. Quanta necessidade tem o mundo de compreender e de acolher a Divina Misericórdia!

Mensagem póstuma deixada por João Paulo II, retirada do site zenit.org

Para receber a misericórdia divina é preciso o arrependimento. Mas oferecer o bem contra o mal é aproximar-se da Sua misericórdia. Sede misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36).

A morte de Osama Bin Laden é o uso do mal contra o mal. Celebrar sua morte com alegria é o mesmo que incitar o ódio e venerar o sentimento de vingança. É preciso de uma vez por todas entendermos as súplicas da Santa Faustina e do Beato João Paulo II, de que a única salvação possível está na prática misericordiosa.

Abri o Meu Coração como fonte viva de misericórdia; que dela tirem vida todas as almas, que se aproximem desse mar de misericórdia com grande confiança. Os pecadores alcançarão justificação, e os justos serão confirmados no bem…

e tanto o pecador como o justo necessitam da Minha misericórdia. A conversão e a perseverança são uma graça da Minha misericórdia.

Trechos do Diário de Santa Irmã Faustina, retirados do site jesus-misericordioso.com

Coisa de maluco

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Eu escrevi o post anterior sobre a relação professor-aluno e sobre bullying na última segunda, dia 4/4. A tragédia em Realengo, em que um maluco saiu atirando em crianças dentro de uma escola, aconteceu na quinta, dia 7/4. E desde o acontecimento, pelo menos duas pessoas me questionaram se eu fazia alguma relação das histórias.

Sou leigo completo em psicologia, antropologia, ou qualquer área correlata, mesmo assim resolvi fundamentar minha opinião por aqui.

Confesso que a princípio, não vi muita relação, embora desde que tomei conhecimento do caso eu tenha desconfiado fortemente que o assassino carregava em si fortes traumas escolares, especialmente com meninas, o que provavelmente explicaria a cruel seleção de gênero feita em todo seu gesto covarde. Somente hoje li relatos de ex-colegas de escola dele dizendo que o então menino Welington era alvo preferido de piadas, apelidos pejorativos, e se abalava principalmente quando era zoado pelas meninas.

Relacionar agora as experiências ruins do assassino com seus atos bárbaros ficou fácil, até pelas características do massacre. Certamente as escolhas feitas por Welington tem raízes em seus traumas de infância e adolescência. Mas não a ponto de justificar sua explosão de extrema violência. Muito menos é possível atribuir aos ex-colegas que o ofenderam qualquer parcela de culpa no que aconteceu. Ou teríamos muitos Welingtons por aí (e de fato existem outros, mas espero que nunca cheguem a tal extremo). A grande maioria, como eu disse no post anterior, acaba resolvendo seus problemas, suas crises de auto-estima e seu isolamento na própria escola. Ou passam por isso com suporte familiar, com boa educação, inserção social, ou simplesmente com a superação pessoal.

Não, ele não fez o que fez porque fora vítima de bullying. Ele o fez porque era louco! E uma pessoa só atinge tal nível de maluquice por uma conjunção de fatores, que passam sim por traumas infanto-juvenis, por ausência parental, má educação, preconceito físico e social, mas passa principalmente, provavelmente (e essa é a típica opinião leiga), pelo que chamam de psicopatia.

E aí, vale o que sempre digo: não procure razão, sentido ou lógica em meio à loucura.

Nota: embora eu procure sempre tratar aqui neste meu espaço de assuntos contemporâneos, temas ‘do momento’, costumo evitar assuntos em extrema evidência, densamente debatidos em toda parte, por julgar que não há muito diferente a dizer que não tenha sido dito por aí. Só trago o assunto quando julgo ter algo diferente para questionar, ou algum ponto-de-vista peculiar para mostrar. Neste caso apenas quis relacionar (ou responder à relação feita entre) o caso da semana e o texto anterior.

Porém, não me custa deixar algumas boas dicas de leitura sobre o assunto, em blogs e sites que leio por aí.

O que se aprende na escola

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Não deve ser fácil a vida de um professor. Vez em quando me questiono: como educar crianças em tempos de excesso de proteção aos alunos e tecnologias para gravação de áudios e videos extremamente acessíveis, mesmo aos mais novos?

Estes dias enviaram um video gravado em uma sala de aula da escola Jesuíno de Arruda (a mesma que dias atrás virou polêmica nacional por video de alunos de 14 ou 15 anos praticando sexo oral na escola), aqui em São Carlos. O vídeo – este mais recente – mostra uma professora carcando um pito na turma bagunceira. Absolutamente normal e compreensível, afinal, sabemos bem a que nível de stress esses professores são expostos por um salário de merda, para lidar com gerações cada vez mais mimadas e acostumadas com as facilidades do mundo moderno.

No Youtube, a gravação foi postada com os seguintes dizeres no título: professora de física comete bullying. O que escancara pelo menos dois problemas:

  1. A falta de conhecimento e discernimento que ainda existe sobre o termo bullying, o que está sendo combatido e como identificar um quadro desses.
  2. O quanto essa geração não aceita imposições, e mais do que isso, conta com o respaldo da sociedade para sempre se posicionar como vítima, e passa a usar os recursos tecnológicos – que bem dominam – como arma de reversão da autoridade em sala de aula. São eles é quem mandam. E aí do professor que ousar exercer sua suposta autoridade.

Este caso me remeteu a um discurso que ouvi na formatura das turmas de Letras e Pedagogia da UNESP, cerca de um mês atrás. Um dos professores (se eu não me engano o patrono da turma de pedagogia) narrou o caso de uma ex-aluna que encontrara, e que lhe contara sobre o difícil exercício da educação onde há tanto protecionismo aos alunos.

Não é difícil imaginar. Qualquer bronca atravessada, qualquer expressão de comando mais enérgica, por tantas vezes necessária, qualquer atitude punitiva ou mesmo educativa, pelo julgamento do educador, hoje é passível de questionamento seja do aluno, seja dos pais. Lembro-me de um caso de dois anos atrás, em que a professora obrigou o aluno a pintar uma parede em que havia feito pichações. Não parece razoável? Uma demonstração direta de atitude e consequência. Mas a professora tornou-se alvo de severas críticas e passou por julgamento público capaz de desencorajar qualquer colega de trabalho a repitir o gesto. Já o aluno-pichador tornou-se vítima, para muitos.

É preciso devolver aos educadores o direito de educar.

O outro lado da moeda

Sim, todo professor deve ter o direito de educar e de exercer sua “soberania” em sala de aula. Claro que excessos e abusos não são toleráveis, mas este limite do que é julgado como excesso ou abuso não pode ser tão tênue. E lá, em seu espaço de trabalho, é dele o julgamento sobre a disciplina da turma, ou individual. No entanto, mesmo que haja essa autonomia, isso não torna a vida do professor mais fácil.

Explico. O educador tem sobre ele uma responsabilidade a qual, talvez, nem tenha tanta ciência. Claro que estímulos positivos e limites punitivos são matérias abrangidas durante a sua formação, sua licenciatura. Porém, há certas respostas psicológicas que só conhecerão tendo experimentado algo parecido.

exato um mês, eu havia citado aqui que já havia vivido experiência parecida com o que hoje chamam de bullying, mas que essa história eu contaria depois. Pois bem, vou contá-la:

Minha pior experiência escolar se deu quando estava na 3ª série, ou seja, devia ter uns 8 ou 9 anos. Eu era muito tímido e fechado, e ainda sofria para entrar nos círculos de amizade que já existiam antes de eu entrar naquela escola. Um grupo de colegas de sala passaram a me perseguir e me agredir após a turma toda levar uma surra em forma de bronca da professora “por minha culpa”. Meu erro? Estar distraído, olhando para ela (ou para frente, sei lá), enquanto ela fazia uma leitura que eu deveria estar acompanhando no livro. Claro que não foi esse o motivo da bronca, apenas o estopim para um dia difícil, com uma turma bagunceira, onde provavelmente eu era um dos menos responsáveis por isso. Mas sobrou para o lado mais fraco.

Não doía quando eu apanhava, mas machuvava depois. Uma surra na auto-estima, que levou anos para cicatrizar. Mas não foi dos que fizeram isso comigo que carreguei as maiores mágoas daquele tempo. Porque o que começa na escola, morre na escola, e tudo muda lá dentro com muita rapidez. Lembro-me que pouco antes de deixar aquela escola, muitos ali tinham era medo de mim, afinal, era um “menino pobre” numa escola de ricos (claro que a “pobreza”, neste caso, era relativa apenas). 

Temos mais facilidade para lembrar dos casos em que fomos vítimas, mas quase todos já estiveram do outro lado.

A mágoa que levei dessa história, ou pelo menos a que perdurou mais tempo, foi com aquela professora, que num momento em que não conteve a sua fúria contra uma rotina sufocante, expôs um de seus melhores alunos à humilhação que lhe causou tanta dor.

Não é fácil educar crianças, e lidar com tanta responsabilidade num ambiente tão explosivo quanto uma sala de aulas.

Ignorância é força

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Enquanto sigo sem tempo, tentando recuperar o ritmo acadêmico depois de mais de cinco anos, deixo por aqui mais um texto mondano das antigas. Este escrito em 16/11/2006.

Ignorância é força¹

Às vezes o sentido da palavra “ignorância” se perde. Ignorar não é escolher não saber, é desconhecer alguma coisa, não ter conhecimento dela2.

Quase todo mundo já ouviu um dia uma expressão do tipo: “como assim, você nunca leu esse livro?”, ou então “fulano é um idiota, aposto que nunca leu ‘Autor X’”. De certo, essas pessoas se julgam mais inteligentes por terem lido tais autores, enquanto os que não leram sequer sabem o que estão perdendo, mas já levam a culpa. Isaac Newton devia ser um tremendo ignorante, já que nunca leu George Orwell…

Dia desses precisei dos serviços de um encanador. Provavelmente o Zé Encanador nunca leu um de meus livros prediletos, mas eu precisei dele, porque, infelizmente, não entendo nada de instalações hidráulicas. Agora me diz: que proveito tiraria João Tapeceiro dos sonetos de Camões, dos deuses greco-romanos, ou da teoria de Chomsky? E o que faria um professor de filosofia, que leu mais livros do que jamais lerei, com meu conhecimento de computação? Um über software ultra-pensante que computasse o sentido da vida, das coisas, e tudo mais3?

2 + 2 = 5

A verdade é subjetiva. O que é verdade para você, pode não caber na realidade do Zé, do João… Da mesma forma, o que cada um julga certo, correto, não será o mesmo para todos. Se alguém crê piamente em algo, para essa pessoa aquilo é uma verdade. E se ela estiver completamente errada sob todos os conceitos que você aprendeu na academia, ainda assim seria prudente não ignorar a possibilidade de seus livros empoeirados estarem todos enganados. E mesmo que isso seja improvável, não se esqueça que aquela pessoa não é pior do que você, ela só ignora algo que você sabe. Talvez porque dedicou boa parte do tempo para aprender serviços dos quais você precisa, ou pode precisar um dia, e jamais poderia fazer.

Antes que viesse o caos (será que antes mesmo?), já que cada um pode tomar como verdade o que bem entende, criaram a sociedade, as leis, a justiça. Simplesmente para organizar o que será considerado verdade para a coletividade, ainda que a coletividade possa estar enganada (o que não é incomum). Então, meu caro, cada um preocupe-se com suas próprias verdades, ou exerçam cidadania para discutir as verdades coletivas. Nunca queira interferir na verdade alheia.

A voz do povo é a voz de Deus

Dia desses ‘ouvi’ uma crítica de um texto que continha um jargão popular. Imediatamente me lembrei de um dos últimos livros que li, no qual o autor se deu o direito, em alguns momentos, de usar esse tipo de expressão, ainda que citasse o fato de que o professor de literatura dele provavelmente o mataria por isso. Às vezes o provérbio tem um poder de síntese do assunto muito maior que o autor (ou, principalmente, o crítico) poderia expressar em outras palavras, mas ainda assim, esse é tencionado a refutar o uso do dito por conta do que sempre aprendeu.

Esse é o problema de seguir a risca a cartilha acadêmica: ignorar o que cabe melhor à própria realidade em prol dos paradigmas pré-estabelecidos. Ignorar, por exemplo, a sapiência popular. Quanto mal não seria evitado se todos lembrassem que “em boca fechada não entra mosquito”? E mesmo que digam que “quem cala consente”, vale lembrar que “antes calar do que mal falar”. Quantas pessoas ignoram o quanto “falar é fácil, fazer é que é difícil”? Quem se lembra, diariamente, que “o sol nasceu pra todos” e “pra cada cabeça uma sentença”?

O Povo, como um todo, faz muita imbecilidade, mas a sabedoria popular ainda é maior do que a de muita gente. Especialmente, dos que ignoram isso.

Às vezes o sentido da palavra “humildade” se perde.

“A bom entendedor, meia palavra basta”.

 

Referências:
1 1984, de George Orwell
2 Dicionário Aurélio
3 O Guia do Mochilerio das Galáxias, de Douglas Adams

ECT, mas pode chamar de ENR (Eu Não Recebi)

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Eu não sei se é um problema nacional da empresa de correios, mas pelo menos aqui em São Carlos a situação está caótica. Acumulam-se correspondências e encomendas, faltam carteiros, e os Correios simplesmente sucumbiram, e acabaram com uma das poucas coisas das quais tínhamos segurança: de que receberíamos nossas correspondências, ainda que sejam só contas a pagar.

Sem receber as contas já há mais de um mês, os cidadãos são obrigados a lembrarem-se de todas as pendências e solicitar 2ª via diretamente com as empresas de serviços. Isso quando há disponível. Algumas pessoas tem ido pessoalmente às agencias dos correios buscar suas correspondências!

E quem não consegue? Bom, aí paga multa por atraso de pagamento, tem seu serviços cancelados, não consegue efetuar sua declaração de Imposto de Renda (ou vão acumular-se todas para os últimos dias, que costumam ser caóticos), e etc.

Solução? Segundo a empresa, o aumento substancial no quadro de funcionários, o que deve levar mais uns seis meses.

E até lá?

O que é preciso ficar claro aqui é que não são os cidadãos que devem cobrar a empresa, nem são eles que devem arcar com o ônus de contas não recebidas. Muito menos devemos nos transformar em carteiros e assumir este papel de buscar nossas correspondências. Não somos clientes dos Correios! Pelo menos não em relação a este tipo de correspondências (cobranças, faturas, informes, e etc). As outras empresas é que são! Elas é que usam e pagam pelo serviço que não está sendo realizado! Elas é que devem cobrar a empresa dos Correios a garantia de recebimento nos devidos prazos! Ou que arrumem outra solução!

Eu gostaria muito de saber o que pode ser feito nesse sentido, porque não tem cabimento que nós continuemos a ser lesados por algo que não é de nossa responsabilidade.

Atualização

A reclamação aqui surtiu efeito. No mesmo dia, ao chegar em casa, havia pelo menos uma dezena de correspondências atrasadas. Algumas até desse mês, olha só! Mas ainda faltam muitas…

Somos feitos de palha

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Texto escrito para o Mondo Redondo, em 23/11/2003. Um dos meus preferidos dos bons tempos mondanos.

Somos feitos de palha. Quanto mais sabemos, mais ignoramos. Ignorantes, fugimos de tudo que nos exponha ao calor de algo intenso. A chama não nos chama.

Somos feitos de lata. Em todas as situações em que a vida nos permite escolha, a razão prevalece ao coração. Embora sejamos sedentos por amor, por amar, é mais seguro manter sobre nós o guarda-chuva que nos protege do bem e do mal. Não há bonança, mas não há tempestade.

Somos feitos de medo. Medo do novo, do incerto. Medo do fogo, da água, mas sobretudo de nós mesmos.

Somos feitos de pó, e em pó nos resumiremos ao fim.

Tirinha

Os politicamente incorretos são essenciais para o senso do ridículo

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Uma coisa que aprendi com os blogs é que ninguém está interessado em seus “grandes” feitos (que no fundo só são grandes para você mesmo), em suas virtudes ou em seus problemas. Preferem ler/ouvir seus tropeços, seus micos, ou, no máximo, suas peripécias, loucuras e transgressões. Schadenfreude explica? Pode ser, mas é que, de fato é bem chatinho ver gente contando vantagem, posando de santo, desancando reclamações, e bla bla blá.

E não é só no mundo virtual que esses assuntos são os mais populares. Tente se lembrar das conversas de mesa de bar ou dos churrascos com os amigos da época da escola. As histórias mais atraentes sempre foram aquelas em que narramos, ou outros narraram as próprias travessuras. A cola coletiva na prova de química, as imitações dos professores, o dia em que chaparam tanto que não se lembram de como voltaram para casa, ou, o tema número um, as gozações com outro colega, às vezes nem tão colega assim.

Não é em prol das boas conversas de rodas que falo agora, mas é preciso reconhecer o importante papel dos politicamente incorretos. Ou das esporádicas ações politicamente incorretas, mesmo dos mais “certinhos”. Afinal, como andaríamos vestidos hoje se não tivéssemos zuado tanto aquele professor de geometria que dava aula com camisa social e calça de moleton? Que tipo de desodorante barato usaríamos se aquele amiguinho não tivesse ganhado o apelido de gambazão no dia em que ficou sem banho? Que piadas estúpidas estaríamos compartilhando na roda do café se não tivessem gargalhado da sua cara, e não da última piada que contou? Questão de bom senso, mas o que é a sensatez se não o acúmulo de experiências com ações e consequências?

São exemplos caricatos, mas às vezes preocupa o excesso de zelo pelo politicamente correto. Atualmente a moda é a caça ao bullying. Sim, quando a coisa extrapola os limites, chegando à violência física ou às gozações excessivas, vexatórias e continuadas, é preciso coibir. E não serei eu, que já sofri com isso na infância (mas isso é assunto para outra oportunidade) que irei dizer o contrário. Só é preciso tomar cuidado para não acabar com esse, vou exagerar, importante fator de sociabilização e senso coletivo do ridículo, sob o risco de formarmos uma geração de completos tapados.

 

Bolha no dedo

Drops do final de semana

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  • Alagados. Queria deixar claro que o post anterior não era nenhuma espécie de premonição ou de mau agouro sobre o que viria a acontecer na capital paulista ontem.
  • Tuitaram. Dos males o menor. Se deu o transtorno que deu em São Paulo num Domingo, imagina como ficaria se fosse num dia útil! Além do que, Kassab já pode se orgulhar por ter construído mais de 100 piscinões em 2 horas.
  • Copa do Mundo de natação. Um dos novos piscinões paulistanos é o estádio do Morumbi. E aí foi inevitável surgirem piadinhas. Mas irônico mesmo foi ler alguns bambis sugerirem que as brincadeiras eram fruto da inveja. Agora, alguém me explica: inveja de quê? Estádio? Salão de Festas do maior rival? Será que é porque a abertura da Copa de 2014 vai ser lá? Ops, não vai né? Ah…
  • Liédson resolve!
  • R10 decide!
  • Uninvited. Há anos, no dia da premiação do Oscar, descubro que tenho tantos amigos cults e updateds, e como estou completamente out. Não tenho a menor idéia sobre qualquer um dos filmes indicados, só sei que eu teria dado a estatueta à Nicole Kidman. Sempre.
  • Carmageddon. O que os porto-alegrenses tem contra bicicletas, afinal? Me lembro de ter lido no final do ano passado, no blog que Massa Crítica POA, que por lá desencorajavam o uso de bicicletas na cidade. “Atrapalha”. Li alguma outra coisa sobre o assunto nesse meio tempo, provavelmente no mesmo blog. Aí quando vi que um monstro havia passado por cima de ciclistas em passeio/manifestação, não foi difícil intuir onde ocorrera essa barbárie. Quase tão surpreso com as imagens fiquei com a declaração de um delegado, ou coisa assim, de que ainda não tinham certeza se o atropelamento foi proposital. Alguém me diz: como é que se avança sobre dezenas de pessoas, por longos metros, em alta velocidade, sem ter a intenção exata de fazer isso? Só posso concluir que as autoridades de PA realmente não querem bicicletas nas ruas. É a involução social!
  • “Carreira, dinheiro, canudo”. Fim de semana muito agradável com a formatura da cunhada Aline, em Araraquara. E se alguém não soubesse que ela estava se formando em Letras, teria descoberto pela quantidade de citações dos oradores. Principalmente citações de Fernando Pessoa. Nem preciso dizer que gostei, né? E parabéns cunhadinha! :)
  • Saudade dos 80. Toda banda de baile começa o flashback nos anos 50, com Elvis, passa pelos anos 60 com Beatles, e pára nos anos 70, com a clássica série LGBT. Alguém me diga, o que há contra os tão bons anos 80?
  • Finger Bubble. Começar a semana com uma bolha no dedo médio não é lá algo muito bom para um programador. Menos ainda pra quem tem como hobby tocar violão.

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