Enquanto sigo sem tempo, tentando recuperar o ritmo acadêmico depois de mais de cinco anos, deixo por aqui mais um texto mondano das antigas. Este escrito em 16/11/2006.

Ignorância é força¹

Às vezes o sentido da palavra “ignorância” se perde. Ignorar não é escolher não saber, é desconhecer alguma coisa, não ter conhecimento dela2.

Quase todo mundo já ouviu um dia uma expressão do tipo: “como assim, você nunca leu esse livro?”, ou então “fulano é um idiota, aposto que nunca leu ‘Autor X’”. De certo, essas pessoas se julgam mais inteligentes por terem lido tais autores, enquanto os que não leram sequer sabem o que estão perdendo, mas já levam a culpa. Isaac Newton devia ser um tremendo ignorante, já que nunca leu George Orwell…

Dia desses precisei dos serviços de um encanador. Provavelmente o Zé Encanador nunca leu um de meus livros prediletos, mas eu precisei dele, porque, infelizmente, não entendo nada de instalações hidráulicas. Agora me diz: que proveito tiraria João Tapeceiro dos sonetos de Camões, dos deuses greco-romanos, ou da teoria de Chomsky? E o que faria um professor de filosofia, que leu mais livros do que jamais lerei, com meu conhecimento de computação? Um über software ultra-pensante que computasse o sentido da vida, das coisas, e tudo mais3?

2 + 2 = 5

A verdade é subjetiva. O que é verdade para você, pode não caber na realidade do Zé, do João… Da mesma forma, o que cada um julga certo, correto, não será o mesmo para todos. Se alguém crê piamente em algo, para essa pessoa aquilo é uma verdade. E se ela estiver completamente errada sob todos os conceitos que você aprendeu na academia, ainda assim seria prudente não ignorar a possibilidade de seus livros empoeirados estarem todos enganados. E mesmo que isso seja improvável, não se esqueça que aquela pessoa não é pior do que você, ela só ignora algo que você sabe. Talvez porque dedicou boa parte do tempo para aprender serviços dos quais você precisa, ou pode precisar um dia, e jamais poderia fazer.

Antes que viesse o caos (será que antes mesmo?), já que cada um pode tomar como verdade o que bem entende, criaram a sociedade, as leis, a justiça. Simplesmente para organizar o que será considerado verdade para a coletividade, ainda que a coletividade possa estar enganada (o que não é incomum). Então, meu caro, cada um preocupe-se com suas próprias verdades, ou exerçam cidadania para discutir as verdades coletivas. Nunca queira interferir na verdade alheia.

A voz do povo é a voz de Deus

Dia desses ‘ouvi’ uma crítica de um texto que continha um jargão popular. Imediatamente me lembrei de um dos últimos livros que li, no qual o autor se deu o direito, em alguns momentos, de usar esse tipo de expressão, ainda que citasse o fato de que o professor de literatura dele provavelmente o mataria por isso. Às vezes o provérbio tem um poder de síntese do assunto muito maior que o autor (ou, principalmente, o crítico) poderia expressar em outras palavras, mas ainda assim, esse é tencionado a refutar o uso do dito por conta do que sempre aprendeu.

Esse é o problema de seguir a risca a cartilha acadêmica: ignorar o que cabe melhor à própria realidade em prol dos paradigmas pré-estabelecidos. Ignorar, por exemplo, a sapiência popular. Quanto mal não seria evitado se todos lembrassem que “em boca fechada não entra mosquito”? E mesmo que digam que “quem cala consente”, vale lembrar que “antes calar do que mal falar”. Quantas pessoas ignoram o quanto “falar é fácil, fazer é que é difícil”? Quem se lembra, diariamente, que “o sol nasceu pra todos” e “pra cada cabeça uma sentença”?

O Povo, como um todo, faz muita imbecilidade, mas a sabedoria popular ainda é maior do que a de muita gente. Especialmente, dos que ignoram isso.

Às vezes o sentido da palavra “humildade” se perde.

“A bom entendedor, meia palavra basta”.

 

Referências:
1 1984, de George Orwell
2 Dicionário Aurélio
3 O Guia do Mochilerio das Galáxias, de Douglas Adams

anderson

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