Eu pensei em fazer uma lista de 10 boas razões para não votar em José Serra nas eleições do próximo fim de semana. Porém, teria grande dificuldade de separar “apenas” 10 motivos. Então, para tentar facilitar um pouco minha vida, vou me concentrar apenas na relação do ex-governador tucano com a USP, universidade onde estou inserido desde 2002, seja como aluno (de 2002 a 2005), seja como funcionário (de 2004 a 2007, e novamente desde 2008).

Antes, é preciso entender o funcionamento das universidades paulistas.

Desde 1989, USP, UNICAMP e UNESP trabalham com o que chamam de autonomia universitária. Através dessa, as três universidades recebem repasse direto de 9,57% do ICMS arrecadado no estado para manterem-se e, eventualmente, expandirem-se. E é graças a essa autonomia que elas conseguem, até então, manter o elevado padrão e a qualidade de ensino e pesquisa, a despeito da falta de investimento público e até de interesse político pela educação no estado de São Paulo, nos últimos 20 anos.

À diferença do modelo anterior, em que os recursos lhes eram repassados sob demanda – segundo a política do pires na mão, com sobressaltos de toda ordem -, a autonomia tornou possível às universidades projetar seu futuro e organizar seu dia-a-dia, estabelecer políticas próprias de racionalização e de investimentos de acordo com o fluxo das demandas sociais e o comportamento da economia, com a vantagem de trabalhar realisticamente sobre previsões orçamentárias.

(José Tadeu Jorge)

Todas as grandes decisões de interesse comum para distribuição e utilização desse repasse é feita pelo CRUESP – Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo – que é sempre presidido por um dos três reitores (normalmente é feito um rodízio).

Isto esclarecido, vamos aos fatos gerados a partir da posse do nosso “querido” ex-governador.

1) Em seu primeiro mês de mandato, José Serra criou a Secretaria do Ensino Superior, a qual vinculou as três universidades paulistas. Fez mais: nomeou para esta secretaria José Aristodemo Pinotti, o qual, por decreto, passou a ser o novo presidente do CRUESP, com poderes de “super-reitor” das universidades.

Como consequência imediata desta ação autoritária e centralizadora, aconteceu o contingenciamento de parte do repasse às univesidades. Só no primeiro mês, a USP teve uma perda de R$ 11,5 mi, a UNESP recebeu apenas R$ 2,4 mi dos R$ 12,7 e a UNICAMP recebeu R$ 5,5 mi a menos.

Foi neste ano que aconteceu uma das mais cansativas greves na USP, com ocupação do prédio da reitoria, e longo embate até que o governo estadual retrocedesse e alterasse o texto do decreto, devolvendo às universidades parte da autonomia que lhes é de direito.

Mas isso não impediu que eles continuassem intervindo, negativamente, nas universidades, sobretudo na USP.

2) Em 2009, durante o período de negociação de pauta unificada, onde são discutidas as correções salariais para as três universidades, o arbitrário José Serra, numa demonstração de clara truculência e intolerância, enviou a tropa de choque da PM ao campus da Cidade Universitária, “a fim de garantir o livre acesso”. A própria presença da polícia tornou o ambiente, que ainda era de negociações e protestos pacíficos, num clima muito mais hostil. Um barril de pólvoras com resultado previsível, embora não fosse visto algo assim desde a década de 60, nos anos mais críticos da ditadura militar.

Tropa de Choque atira bombas de efeito moral contra estudantes, funcionários e professores

Mas nada que seja novidade. Os professores da rede pública estadual sabem bem que esse é o modus operandi de José Serra.

3) Em Janeiro de 2010, José Serra recebeu, em suas mãos, a “famosa” lista tríplice da USP, com os nomes dos três candidatos a reitoria mais votados dentro da universidade. Por tradição e bom senso, esta escolha sempre se resumiu a mera formalidade para nomear o candidato mais votado como reitor da USP.

Como estamos falando do arbitrário, centralizador e déspota José Serra, Glaucius Oliva, então diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), candidato mais votado com ampla vantagem nos dois turnos da eleição, foi preterido. E o escolhido a dedo pelo governador tucano foi apenas o segundo mais votado (104 votos, contra 161 de Glaucius Oliva e 101 de Armando Corbani Ferraz), João Grandino Rodas, que deixou a diretoria da Faculdade de Direito (FDUSP) para assumir a Reitoria.

No último dia como diretor da FDUSP, Rodas baixou portarias cujo conteúdo foi mantido em segredo por algum tempo. Uma delas nomeia duas salas da faculdade como Pinheiro Neto e Pedro Conde, como contrapartida a doações recebidas do escritório do primeiro e da família do segundo. Tais doações não teriam sido feitas de acordo com o regimento da Universidade e em desacordo com parecer da Consultoria Jurídica USP, que em caso semelhante na FEA, declarou inválida a modalidade de doação com contraprestação, mesmo que apenas moral. A negociação foi feita pelo presidente da Associação dos Antigos Alunos da FDUSP.

Outra portaria mandou a transferência do acervo das bibliotecas departamentais e da biblioteca circulante da Faculdade de Direito, para o prédio anexo IV, na rua Senador Feijó 205. O prédio, no entanto, carece de laudo pericial atestando a possibilidade de abrigar os acervos de mais de 150.000 livros e de condições mínimas de preservação do acervo. O qual está exposto a vários riscos.

(WikiPédia)

Rodas tem muito a ver com Serra. Dois anos antes do episódio da PM no campus da USP, Rodas já havia requisitado a presença da PM dentro da FDUSP para a expulsão de estudantes que manifestavam na Jornada em Defesa da Educação. Devo considerar a hipótese de tal nomeação ter sido uma retribuição do tucano pela inspiração…

“Coincidentemente”, um mês após a nomeação do novo reitor, foi aprovado no CRUESP, sem ressalvas, sem reivindicações, sem necessidade de qualquer tipo de manifestação, um aumento real de cerca de 6% aos servidores docentes, e apenas aos docentes das três universidades, pela “valorização dos recursos humanos”.

Nós, burros de carga servidores não-docentes da USP, por consequência, entendemos não estarmos enquadrados na classificação “humana”, segundo os mentores de tal benefício.

A atitude elitista e discriminatória foi encarada, evidentemente, como provocação. Era óbvio que tratava-se de mais uma manobra política, seja por retaliação aos eventos de 2009, ou seja simplesmente para que, posteriormente, eles tivessem a oportunidade de demonstrar mais uma vez a truculência e arbitrariedade que lhes é costumaz, em uma sucessão de ameaças e retaliações aos servidores que entraram em greve ou manifestaram-se contra tal atitude.

Vote Serra para Ditador

Essa é a forma como José Serra lida com as políticas sociais, a educação, os trabalhores…. É só como ele sabe fazer. Sua fama de centralizador e autoritário é reforçada por cada ação de seu governo.

E se depois de ler tudo isso você ainda considera a hipótese de votar neste déspota, não há muito mais o que argumentar. É uma questão de valores. Os meus, pelo menos, jamais aceitarão governantes com esse tipo de conduta.

anderson

4 Responses to “José Serra e a USP”

  1. E, pasme, com tudo isso ainda fui acossada há algumas semanas por duas funcionárias – que por sinal fizeram greve, oi, coerência? – que diziam que “Serra vai colocar ordem em tudo”.
    Tô sem entender até agora, juro.

  2. […] que as demissões propriamente ditas é o rumo cada vez mais claro que a universidade parece tomar. Só para lembrar, João Grandino Rodas foi o escolhido a dedo pelo Serra para a reitoria da USP, e desde que assumiu vem adotando medidas de confronto direto aos servidores não-docentes, os […]

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