(ou o meu lado negro)

(série esporádica de posts despretensiosos sobre histórias inusitadas, em ordem descontínua, de minha vida pacata)

(texto originalmente escrito em 24/04/2005)

Como todo homem, eu já levei meus foras. No meu caso em específico, graças a meu físico avantajado (em volume), eles foram muitos, de todos os tipos. Alguns traumáticos, devido a forma grosseira como fui rejeitado. Mas, como homem (e agora estou falando da espécie humana), tenho meu lado negro, e já cometi as minhas grosserias estúpidas.

Quando me convidaram para minha primeira valsa em baile de debutante, confesso que, a despeito do receio de pagar mico e da precupação com roupa decente, eu me senti um pouco… digamos… satisfeito. Enfim, haviam reconhecido meu valor, e eu poderia participar da atração da festa não mais como mero espectador. Minha mente adolescente, inevitavelmente, também pensou na oportunidade de ter uma companheira de dança, o que para um garoto tímido em tempos de seca (como aqueles) era uma oportunidade quase que única para tentar algo.

Quando cheguei a festa, se apressaram em apresentar minha parceira. Logo percebi que, muito além da minha expectativa em relação a garota, estava a dela em relação a mim. Ou melhor, as delas, já que logo percebi que havia um complô para nos unir. Não por acaso. Era algo como: para a patinha feia, o patinho feio.

Sim, ela era feia. Claro que, como eu já deixei bem claro, eu tava longe de ser um galã. Mas, meu… Não adianta dizer que “o importante é ser uma pessoa bacana, beleza não importa”. Quando você tem 15 anos, e está numa festa como aquela, não tem como você se interessar por uma menina que você nem conhece se ela for feia! Ainda mais [mode cabeça_de_adolescente on] feia daquele tanto [mode off]!

“O negócio é beber. Bebe que ela fica mais bonita. Ou, pelo menos, você fica bêbado e nem vai ligar”. E foi assim que, incentivado pelos meus (muy)amigos, comecei a beber, e beber, e beber… Meu intuito era ao menos conseguir dançar. Se ela ficasse bonita o suficiente pra eu ficar com ela (e ela ainda esperava por isso)… Mas nem toda a cerveja daquela noite resolveu de alguma coisa.

Pois acontece que exagerei na dose. Quando a valsa começou, eu estava muito drunk. A primeira coisa que ela me disse, foi: “tá bêbado né?”. Que isso… Só um pouquinho…

Foi, certamente, a música mais longa de toda minha vida. E não (só) pela companhia, mas enquanto a música tocava, e a gente girava, minha cabeça girava, e meu estômago então… Fui tomado por uma náusea incontrolável. Quando bateu a primeira vontade de vomitar, eu pedi imediatamente: “acho melhor a gente parar de girar um pouco”. Mas, a essa altura, pouco adiantava. A música era realmente interminável, e quando ela cessou, logo outra começou a tocar. Eu, imediatamente, já com a sensação de dever cumprido, pedi licença a menina e corri para chamar o Hugo.

Sim, foi horrível. Eu fui realmente estúpido naquele dia. Mas, a consciência só pesou anos depois, com a maturidade. A grande lição para o adolescente Anderson, aquele dia, foi que: se é verdade que não existe mulher feia, a gente é que não bebeu o suficiente, então, em alguns casos, o “suficiente” é muito além do que nosso organismo pode suportar.

anderson

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