Onde mora a inteligência? Num livro de Nietzsche? Numa prova de Cálculo? E onde ela morre? Numa música baiana? No Domingão do Faustão? Num estádio de futebol?

Minha paixão pelo futebol e meu fanatismo pelo Corinthians, qualquer pessoa que me acompanhe, que me siga, que me adicione, percebe rapidinho. E por causa dessa paixão, desse fanatismo, já tive que ouvir algumas vezes coisas do tipo: como pode, tão inteligente, e tão fanático? Já ouvi isso, ou algo parecido, da minha esposa, da minha irmã, da cunhada, de amigos…

A essas pessoas, tenho dois alertas importantes:

  1. É provável que eu não tenha metade da inteligência que vocês imaginam em mim. Provavelmente tiraram essa impressão através de uma colagem bem formulada de conhecimentos supérfluos sobre assuntos que inspiram alguma confiança (pelo menos, mais que o futebol).
  2. Inteligência e fanatismo não são mutuamente excludentes. E se eu tinha alguma dúvida disso, ela acabou ao ler Luis Fernando Veríssimo.

Todos estes prazeres passam – com o tempo e as obrigações, com a vida séria, com a barriga –  mas o amor pelo nosso time continua. Confiamos ao nosso time a tarefa de continuar nossa infância por nós. Passamos-lhe a guarda dos nossos prazeres com a bola. A relação com o nosso time é a única das nossas relações infantis que perdura, tão intensa e irracional quanto antes. Ou mais.

De onde vem isso?  Que tipo de amor é esse? Um mistério. Dizem que no fundo é uma necessidade de guerra. De ter uma bandeira, ser uma nação e arrasar outras nações, nem que seja metaforicamente. Psicologia fácil. Não explica por que a pequena torcida do Atlético Cafundó,  que nunca arrasará ninguém, continua torcendo pelo seu time. Talvez o que a gente ame no futebol seja o nosso amor pelo futebol. Isso que nos faz diferentes dos outros, que amam o futebol mas não tanto, não tão brasileiramente.

Ou talvez o que a gente ame seja justamente o mistério.

O Mistério do Futebol – Luis Fernando Veríssimo

Agora, se tem uma coisa inteligente com a qual eu me preocupo cada vez mais, é em não transmitir o meu fanatismo a meu futuro filho (quando vier – calma, não é um anúncio).

Provavelmente darei alguma fardinha alvinegra, levarei a estádios quando possível, e se possível (se as condições forem melhores que as atuais), velarei para que não ocorra o pior para a criança (ou seja, tornar-se palmeirense), mas procurarei não incentivar demonstrações fanáticas extremas. Porque não há nada mais cruel do que cenas como essas…

Ópio é a ignorância

Outra indagação indignada que comumente recebo vem de pessoas que normalmente são muito inteligentes e/ou muito cultas, e refere-se à minha religiosidade. Por algum motivo, o fato de eu ser um católico apostólico romano, frequente às missas, causa espanto em quem espera de mim algum senso crítico que me impediria de frequentar igrejas. A essas pessoas também tenho bons alertas:

  1. O que envolve fé, necessariamente, transcende a razão.
  2. Os amigos mais inteligentes da minha turma na universidade (os de melhores notas) eram bastante religiosos. O que não prova que inteligência e fé andam lado a lado, mas refuta a idéia de serem excludentes.
  3. Já que são cultos, leiam Sorën Kierkegaard.

O fundamental não é saber se o Cristianismo é verdadeiro globalmente, o fundamental é saber se ele é verdadeiro para mim. Se é válido pelo menos para mim, que me importa se outros dizem que não o seja? Por que deveria aceitar algo negativo apenas porque um outro disse que é ou não é assim? O que sabe esse outro sobre mim de fato para dizer o que seja ou não válido para mim?

Kierkegaard por Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Então, tentando responder às perguntas do início do post: a inteligência, ou melhor, os mais diversos tipos de inteligências podem ser formados por configurações infinitas. E, decididamente, avaliar gostos, convicções e hobbies não é um teste de QI eficaz.

anderson

7 Responses to “O exemplo veríssimo”

  1. Aproveitando o post, recomendo o texto feito pelo Mauro Cezar Pereira da ESPN (Futebol nos ensina cedo euforia e o sofrimento profundo. É aula de vida), ele fala sobre o Palmeiras, mas serve para qualquer time, abaixo um pequeno trecho:

    “A paixão pelo Palmeiras vale mais do que qualquer taça. E é por isso que o clube continuará sendo um grande. O futebol é assim, ensina desde cedo o que é euforia extrema e sofrimento profundo. É aula de vida. E e por essas e outras que nós adoramos isso.

    E nunca é demais lembrar: melhor do que vencer é ter um time pelo qual torcer.”

    http://espnbrasil.terra.com.br/maurocezarpereira/post/161860_FUTEBOL+NOS+ENSINA+CEDO+EUFORIA+E+O+SOFRIMENTO+PROFUNDO+E+AULA+DE+VIDA

  2. […] Quem se ocupa em criticar o BBB ou as pessoass que assistem ao programa é porque não tem, absolutamente, nada melhor pra fazer. Porque, no fundo, é só entretenimento. Ninguém é mais ou menos inteligente porque assiste ou deixa de assistir qualquer coisa que seja. Ninguém assiste reality show (ou pouca gente o faz) pensando em aprender algo novo, ter valores agregados, e etc. Nem todo mundo se entretém com um livro clássico. Mas eu tenho uma sugestão de leitura para quem gosta de questionar a inteligência alheia baseado em preferências de entretenimento. (leia) […]

  3. Eu adoro dizer que não gosto de nada que vicie, razão que me mantém distante de jogos de futebol. Mas basta me observar um pouco para identificar o vício em coca cola, em internet…

    A explicação sobre o time é bem bonita, profunda. Resgatando minha infância eu amava bem o são paulo.
    Mas, talvez, não de um jeito brasileiro…

    – Que bom que você se preocupa com a sua futura geração!

    Bjo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *