Sujeito peculiar é esse pão-duro. Pode ser seu melhor conselheiro financeiro, e dar dicas muito interessantes. Por exemplo, como manter o controle até do gasto da padaria, como transformar uma necessidade numa oportunidade, ou como não gastar com nenhuma taxa bancária, entre outras coisas. Mas nunca, nunca faça negócios com ele. Você perderá. Pouco ou muito, mas perderá, porque ele é que não vai! O pão-duro é regido por uma única lei: a de Gerson.

Outra dica importante é observar as atitudes do pão-duro. Terá muito a aprender. Claro que nem tudo deve ser copiado, por exemplo, o pão-duro toma apenas três banhos por semana. Reduz, com isso, a água e a energia do banho e da lavagem das roupas (que são reaproveitadas).

O pão-duro anda com celular desligado, que é para que a bateria dure por mais tempo, e principalmente para economizar a energia elétrica da recarga. De quebra, evita pagar roaming quando está fora, e que a diarista ligue da sua própria casa, o que aumentaria em severos centavos a conta telefônica do mês.

O pão-duro é solteiro, por duas razões básicas. A primeira é a que todo mundo imagina: casamento custa caro! E ainda corre-se o risco de não dar certo, e sair ainda mais caro! Não, o pão-duro prefere satisfazer-se com as putas. Pelo menos assim mantém os gastos sob controle. E ainda fica amigo delas, que é pra garantir alguns coitos gratuítos. Sempre tomando cuidado para a amizade não se prolongar demais, não ficar íntima demais.

A segunda razão pela qual o pão-duro se mantém solteiro é menos evidente, e exige um pouco de raciocínio psicológico. Pense comigo, se a filosofia do pão-duro é levar vantagem em todo e qualquer negócio que faça, ou não tem negócio, na hora de flertar o nível de exigência dele já começa acima do seu próprio nível estético, cultural ou de inteligência. E não é que nunca tenha encontrado uma mulher mais interessante que ele que lhe desse bola. O problema é que nas raras oportunidades em que essa configuração se apresentou, a candidata não pertencia aos 2% de mulheres com desapego material.

O pão-duro não deixa de comemorar seus aniversários. Pelo contrário, faz em sua própria casa. Festa americana. Cada um leva o que vai consumir, com alguma sobra, já que ele não comprará nada pois já cederá a casa. Com sorte, sempre sobra alguma coisa para garantir, pelo menos, o almoço do dia seguinte. Às vezes da semana inteira!

O carro do pão-duro ainda é o velho Uno Mille 95, convertido a bicombustível numa promoção da Oficina do Gaspar. Não que ele não tenha dinheiro para comprar um zero, ou que não tenha se convencido de que um carro novo dá menos gasto de manutenção. O problema é que ainda não encontrou quem pagasse pelo seu possante os 16 mil reais, valor justo a que chegou somando o que pagou pelo carro, mais os custos de manutenção e conservação, aquele pneu novinho, com menos de 6 meses de uso… Isso porque foi generoso e não considerou o valor sentimental, que não tem preço!

Mas o pão-duro é um cara legal. É sim. Ótima pessoa para ir levar um papo de bar com você no happy hour. Pra isso ele põe a mão no bolso. É um dinheiro bem gasto, deve pensar. Claro que cada um paga o seu. E de preferência, leve dinheiro, porque ele gosta de ficar com o cash na mão, e pagar a conta toda no crédito. Porque, sabe como é, embora seja extremamente controlado com seus gastos, o pão-duro está sempre reclamando que não tem dinheiro. Provavelmente porque tudo que poupou está investido. Em imóveis, que é pra não correr riscos!

Dedico este texto aos meus colegas de trabalho, seja pela pão-durisse inspiradora, seja pelas brincadeiras na hora do café, de onde tirei a maioria das idéias para este conto.

anderson

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