Não deve ser fácil a vida de um professor. Vez em quando me questiono: como educar crianças em tempos de excesso de proteção aos alunos e tecnologias para gravação de áudios e videos extremamente acessíveis, mesmo aos mais novos?

Estes dias enviaram um video gravado em uma sala de aula da escola Jesuíno de Arruda (a mesma que dias atrás virou polêmica nacional por video de alunos de 14 ou 15 anos praticando sexo oral na escola), aqui em São Carlos. O vídeo – este mais recente – mostra uma professora carcando um pito na turma bagunceira. Absolutamente normal e compreensível, afinal, sabemos bem a que nível de stress esses professores são expostos por um salário de merda, para lidar com gerações cada vez mais mimadas e acostumadas com as facilidades do mundo moderno.

No Youtube, a gravação foi postada com os seguintes dizeres no título: professora de física comete bullying. O que escancara pelo menos dois problemas:

  1. A falta de conhecimento e discernimento que ainda existe sobre o termo bullying, o que está sendo combatido e como identificar um quadro desses.
  2. O quanto essa geração não aceita imposições, e mais do que isso, conta com o respaldo da sociedade para sempre se posicionar como vítima, e passa a usar os recursos tecnológicos – que bem dominam – como arma de reversão da autoridade em sala de aula. São eles é quem mandam. E ai do professor que ousar exercer sua suposta autoridade.

Este caso me remeteu a um discurso que ouvi na formatura das turmas de Letras e Pedagogia da UNESP, cerca de um mês atrás. Um dos professores (se eu não me engano o patrono da turma de pedagogia) narrou o caso de uma ex-aluna que encontrara, e que lhe contara sobre o difícil exercício da educação onde há tanto protecionismo aos alunos.

Não é difícil imaginar. Qualquer bronca atravessada, qualquer expressão de comando mais enérgica, por tantas vezes necessária, qualquer atitude punitiva ou mesmo educativa, pelo julgamento do educador, hoje é passível de questionamento seja do aluno, seja dos pais. Lembro-me de um caso de dois anos atrás, em que a professora obrigou o aluno a pintar uma parede em que havia feito pichações. Não parece razoável? Uma demonstração direta de atitude e consequência. Mas a professora tornou-se alvo de severas críticas e passou por julgamento público capaz de desencorajar qualquer colega de trabalho a repitir o gesto. Já o aluno-pichador tornou-se vítima, para muitos.

É preciso devolver aos educadores o direito de educar.

O outro lado da moeda

Sim, todo professor deve ter o direito de educar e de exercer sua “soberania” em sala de aula. Claro que excessos e abusos não são toleráveis, mas este limite do que é julgado como excesso ou abuso não pode ser tão tênue. E lá, em seu espaço de trabalho, é dele o julgamento sobre a disciplina da turma, ou individual. No entanto, mesmo que haja essa autonomia, isso não torna a vida do professor mais fácil.

Explico. O educador tem sobre ele uma responsabilidade a qual, talvez, nem tenha tanta ciência. Claro que estímulos positivos e limites punitivos são matérias abrangidas durante a sua formação, sua licenciatura. Porém, há certas respostas psicológicas que só conhecerão tendo experimentado algo parecido.

exato um mês, eu havia citado aqui que já havia vivido experiência parecida com o que hoje chamam de bullying, mas que essa história eu contaria depois. Pois bem, vou contá-la:

Minha pior experiência escolar se deu quando estava na 3ª série, ou seja, devia ter uns 8 ou 9 anos. Eu era muito tímido e fechado, e ainda sofria para entrar nos círculos de amizade que já existiam antes de eu entrar naquela escola. Um grupo de colegas de sala passaram a me perseguir e me agredir após a turma toda levar uma surra em forma de bronca da professora “por minha culpa”. Meu erro? Estar distraído, olhando para ela (ou para frente, sei lá), enquanto ela fazia uma leitura que eu deveria estar acompanhando no livro. Claro que não foi esse o motivo da bronca, apenas o estopim para um dia difícil, com uma turma bagunceira, onde provavelmente eu era um dos menos responsáveis por isso. Mas sobrou para o lado mais fraco.

Não doía quando eu apanhava, mas machuvava depois. Uma surra na auto-estima, que levou anos para cicatrizar. Mas não foi dos que fizeram isso comigo que carreguei as maiores mágoas daquele tempo. Porque o que começa na escola, morre na escola, e tudo muda lá dentro com muita rapidez. Lembro-me que pouco antes de deixar aquela escola, muitos ali tinham era medo de mim, afinal, era um “menino pobre” numa escola de ricos (claro que a “pobreza”, neste caso, era relativa apenas).

Temos mais facilidade para lembrar dos casos em que fomos vítimas, mas quase todos já estiveram do outro lado.

A mágoa que levei dessa história, ou pelo menos a que perdurou mais tempo, foi com aquela professora, que num momento em que não conteve a sua fúria contra uma rotina sufocante, expôs um de seus melhores alunos à humilhação que lhe causou tanta dor.

Não é fácil educar crianças, e lidar com tanta responsabilidade num ambiente tão explosivo quanto uma sala de aulas.

anderson

5 Responses to “O que se aprende na escola”

  1. Caras, no meu tempo professor era algo quase sagrado. Eu não podia, em casa, falar mal de um professor, a razão era sempre da pessoa que estava educando e que se chegasse a uma situação parecida com a da citada professora, era simplesmente pq não havia disciplina.

  2. Olha, se a geração atual quer ser burra, que seja.

    Só não venham depois com mil debates dizendo que “o nível de conhecimento adquirido nas escolas brasileiras caiu” e coisas similares, pois meu comentário será “Oh! Caiu? Por que será???”

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