No meu antigo blog eu cheguei a escrever cerca de uma dezena de textos numa série a qual dei o nome de My Wonder Years, e a descrevia como uma série esporádica de posts despretensiosos sobre histórias inusitadas, em ordem descontínua, de minha vida pacata. Resolvi transpor os textos dessa série pra cá, um por semana. Talvez pule alguns, porque tem histórias que ficaram chatinhas. Quando acabar, tento contar mais histórias curiosas dos meus anos idos.


O Vestibular – Janeiro de 2002

(texto originalmente escrito em 17/01/2005)

É a velha mania de deixar tudo pra depois. Eu estava com um problema na região do cóccix, causado por uma fístula (mas isso só vim a saber depois), que me acometia aleatoriamente desde 99. Sempre que inflamava, eu mal podia me sentar. Secreções sangüíneas apareciam às vezes. Era uma dor terrível, mas mesmo assim, prorroguei a resolução do problema (não me pergunte por quê, mas provavelmente por aquilo acontecer muito de vez em quando e sumir em poucos dias).

Pois era a véspera da primeira prova da segunda fase da Fuvest quando a inflamação resolver ter sua pior crise. Começou na noite de sexta pra sábado. Uma dor que de tão insuportável, me deixou na dúvida entre ficar quieto, gemendo, ou ir até o pronto-socorro, tendo que sentar e dirigir (eu estava sozinho em casa). Fui, e tomei uma injeção que amenizou a dor, mas não resolveu o problema. Tanto que não consegui dormir.

Duranto o sábado, eu queria acreditar que a dor passaria, mas não passava. Ao contrário, aumentava, e voltei ao pronto-socorro. Depois de muito esperar, fui atendido, e o plantonista me disse que, possívelmente, eu precisaria passar por cirurgia, mas que devia procurar um especialista na segunda. Segunda? A prova do vestibular era no domingo! “Bom, tome estes remédios. São analgésicos. Amanhã, antes de ir fazer a prova, passe para tomar uma injeção de Voltaren, pra suportar a dor”.

Naquele dia ainda briguei com a namorada (da época), que me chamou de irresponsável por não ter visto isso antes.

Foi deste jeito que fui para a prova que decidiria meu futuro: duas noites praticamente sem dormir, brigado com a namorada, e com aquela dor totalmente insuportável. Pensei várias vezes em desistir, mas depois de tanto sofrimento pra conseguir uma vaga em cursinho popular… De tanto empenho pra estudar e trabalhar… Cogitei então faltar àquela prova apenas. Mas era a prova de português e redação. As outras seriam de Matemática e Física, então eu sabia que era naquela que eu tinha que ir bem. Fui ao pronto-socorro, e depois para o local da prova, no banco de trás do carro, deitado. Como iria aguentar quatro horas sentado? Suava muito. E não era o calor do verão, porque o dia até estava fresco. Durante o tempo que precedeu a prova, fiquei em pé na porta da sala. Várias fiscais vieram me perguntar se eu estava bem, e se tinha condições de fazer a prova. Eu disse que sim, mas que por favor, me deixassem em pé até que começasse a prova.

A prova começou, e sentei na ponta da cadeira. Comecei pelas questões, e pelo menos o medo de ir mal devido a tantos problemas, começou a se afastar. Eu estava destruindo a prova! Respondi todas as questões, embora uma ou duas tenham sido bem no chute mesmo (até que é uma boa média pra segunda fase). O tema da redação era educação familiar, ou coisa assim. Mas pouco importa, fiz ela toda, sem muita enrolação, e saí dali, mancando de tanto me apoiar em um lado só. De lá fui direto para outro pronto-socorro, tomar outra injeção de Voltaren. Estava demais.

No mesmo dia, a inflamação estourou, e o que parecia que seria pior, foi o que começou a aliviar a dor. A segunda prova da segunda fase era apenas na quarta, e até lá eu já estava melhor, embora ainda precisasse me equilibrar na cadeira pra fazer a prova.

Tinha mesmo que ser. Foi justamente aquela prova de Português que me fez passar. Dos 40 pontos possíveis, fiz mais de 30, o que me colocou acima da média dos candidatos (nesta prova). E no dia 23 de Janeiro, após as provas do vestibular da UFSCar, fiz a remoção do cisto pilonidal, o que me deixou mais de um mês, literalmente, “com a bunda pra lua”. Mas isto é uma outra história. E é apenas o começo de meses turbulentos que mudaram a minha vida.

PS: Nem preciso dizer que todas aquelas histórias (como chocolate, alongamento, comer isso, não comer aquilo) pra “relaxar” na hora da prova e manter a concentração, pra mim, é lenda né? Levem caneta, lápis, borracha, água, conhecimento e cérebro. É do que precisam.

anderson

3 Responses to “My Wonder Years – O Vestibular”

  1. Admiro muito seu compromisso. Em epoca de vestibular, bastava eu acordar fora da hora que costumava e ter um cafe da manha diferente que ja estava uma pilha de nervos. No final de tudo, mais vale o que voce e do que o que voce quer. Beijos!

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