A CBF decidiu “unificar” os títulos da Taça Brasil e da Taça de Prata (Roberto Gomes Pedrosa) aos títulos do Campeonato Brasileiro, que teve início apenas em 1971.

De fato, os torneios anteriores eram o que havia de mais próximo ao que se tornou o Campeonato Brasileiro. Os torcedores dos times campeões desses torneios sempre se sentiram como “legítimos” campeões brasileiros, pois eram quase isso realmente. Quase…

O problema de recontar a história quarenta anos depois é a distorção que isso provoca. A partir de amanhã, ao se referirem aos campeões brasileiros, não haverá mais distinção entre cada um desses torneios. E eles foram, na essência, diferentes. Com propostas diferentes, abrangência diferente, caráter diferente. Apenas a importância dos títulos são quase equivalentes. A da Taça Brasil na verdade está muito mais para se equivaler à Copa do Brasil, mas, tá, tem lá sua importância.

E o que vai acontecer? Torcedores palmeirenses e santistas sairão às ruas comemorando a conquista, num único dia, de quatro e seis novos títulos nacionais, respectivamente? Quem fizer isso estará assumindo a ignorância da história do próprio clube para o qual torce. Porque os que conhecem, sempre conheceram a importância e a relevância das conquistas dos anos 60. Ou algum santista não se orgulhava dos cinco títulos da Taça Brasil, e do título da Taça de Prata? Ou faltavam reverências às conquistas de 60, 67 e 69 nos memoriais alviverdes? Não é um carimbo e uma nomenclatura errada da CBF agora que tornará esses títulos mais importantes. No máximo, mais reconhecido. E acho que esse era o único ponto a ser levantado.

Não seria possível investir em divulgação e informação para ampliar a cultura e a história do nosso futebol, ao invés de, numa canetada, distorcer o significado das competições realizadas no passado? Criar uma situação exdrúxula onde o Palmeiras é bicampeão brasileiro em um único ano (ganhou a Taça Brasil e o Robertão em 67)? Só no Brasil mesmo!

Decisão meramente política. Infelizmente, tem torcedor comemorando. Só agora.

Notas adicionais

  • Pelo que andei lendo, a decisão ainda não foi oficializada pela CBF. Mas meu palpite é que a decisão está sim tomada, e de alguma forma alguém da Globo teve acesso à essa informação, e vazou.
  • Aos reticentes, e aos que acham que minha crítica é coisa de corinthiano, que não teve nenhum título no período para unificar, sugiro ótimas leituras do pessoal sempre muito respeitável da ESPN. O texto do Mauro Cézar é de Março deste ano (porque a discussão é antiga já). E resume exatamente o que penso. Como também é o caso do texto de hoje do palmeirense PVC, em seu blog. Vale té destacar o trecho inicial:

    Não se trata de negar a importância deles, mas de entender a importância de cada título em cada época. Não é preciso chamar Dom Pedro I de Presidente da República. Ao contar que Dom Pedro era Imperador, entende-se que se tratava do homem mais importante do Império — não havia República.

  • Como bem me fez lembrar o Fábio nos comentários (embora tenha tentado tolamente desmerecer o nosso título), o exemplo do Mundial de Clubes é análogo. E a posição da Fifa sobre o assunto é correta. Respeita e reconhece o Torneio Intercontinental (Copa Toyota) e seus campeões, mas não mistura-os com os campeões do Mundial de Clubes da Fifa.

anderson

7 Responses to “Recriaram a história do futebol brasileiro”

  1. Concordo totalmente.

    Mas aí vale ressaltar que a FPF fez o mesmo, pois considera até títulos da época do amador como Paulistão. E também tem 2 campeões no mesmo ano, da época em que haviam duas ligas.

    Assim como o Boca Júniors é campeão mundial de 2000, e o Corinthians também se considera campeão no mesmo ano. Complicado…

    • A tentativa de envolver o Corinthians era previsível. Só que tem uma diferença básica: o Mundial de 2000 era o Mundial de Clubes da Fifa antes de começar, durante, e até hoje. Enquanto a Copa Toyota continua sendo a Copa Toyota até hoje para a entidade. E pelo menos por enquanto a atitude da entidade máxima do futebol é muito mais didática. É um título importante, que confrontava os campeões da Europa e da América do Sul. Mas não era Mundial. E essa diferença está muito clara no site da Fifa. Ainda bem! Pro bem da história do futebol.

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