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Alternativas às cotas

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De novo esse assunto… Como está em julgamento pelo STF a constitucionalidade das cotas universitárias, não resisti a comentá-lo novamente. Já abordei o tema de forma direta há muito tempo atrás, ainda no blog antigo. Desde então, já mudei demais minhas opiniões (por isso preferi nem linká-lo aqui), muito devido à maturidade e aos intensos debates e leituras sobre o tema. No entanto, reafirmei minha posição contrária às cotas ao citá-las, de forma indireta, recentemente por aqui.

Vou admitir pela primeira vez: já não sou totalmente contra as cotas. Assim, eu entendo a razão delas existirem. Entendo as intenções, e a maioria dos argumentos de quem as defende. Com alguns até concordo, outros não, principalmente quando tentam resumir o debate a provar que o preconceito ainda é forte no país, e que isso por si só justifica a política adotada. Só que eu ainda sou daqueles que entendem que, se o preconceito existe – e existe muito claramente, não é preciso três laudas com números e números para provar isso – não podemos ignorá-lo, mas também não devemos aceitá-lo! O objetivo final deve ser, sempre, que todos sejam visto como iguais! Claro que respeitando as origens culturais de cada povo, mas indissociando as raças. Até porque, o conceito de raça já me parece mais e mais anacrônico.

Isso não quer dizer que precisamos esperar mais 512 anos para agir. As ações podem e devem ser imediatas, ou negros e índios assistirão calados mais algumas gerações de injustiças, que possivelmente se perpetuariam. Mas então, como agir, a curto e médio prazo, sem intensificar as distinções de pessoas pelo tom de pele?

Eu tenho algumas ideias. Se são boas e eficazes ou não, eu não sei, mas me parecem mais interessantes socialmente, e gostaria de ao menos poder debatê-las, em algum momento, sem a ojeriza dos pró-cotas.

A ideia mais básica que defendo desde 2001, quando ouvi pela primeira vez sobre a proposta das cotas, é a da criação de cursos preparatórios pré-vestibulares. Pois entendo que reservar cotas diretas nas universidades é pressupor colocar lá pessoas que não tem ainda a mesma base educacional que os demais aprovados. E para os que acreditam que, depois que entrarem, os cotistas terão total capacidade de acompanhar o ritmo de seus cursos, então vão concordar também que se um ou dois anos de cursinho não vão sanar todo o déficit educacional desses, no mínimo servirão como uma sustentação maior. Além de ser uma oportunidade quase única de dar a essas pessoas formação e espírito crítico muito mais amplo do que teriam em suas graduações específicas.

Já existem muitas iniciativas de cursinhos populares espalhadas pelo país, e são louváveis. Eu mesmo me beneficiei de um desses, e foi uma das melhores experiências de vida que já tive. Mas não basta. O que eu proponho é que existam alternativas públicas, governamentais, e de qualidade igual ou superior aos melhores colégios privados do país, e que sejam voltados exclusivamente à pessoas de baixa renda. Ou seja, nem seria necessária a dissociação de pessoas por tons de pele para isso. Embora seja bastante razoável pensar em algo mais direcionado à população negra e indígena, nesse sentido, o que poderia ser feito de forma menos discriminatória.

Essa alternativa poderia, ao médio e longo prazo, fundir-se ao ensino médio público (que já deveria ter essa qualidade garantida, mas não tem), e, eventualmente, com acréscimo de trabalhos orientados à capacitação – diferente do modelo de ensino profissionalizante atual – para que não haja retardo na inserção desses jovens no mercado de trabalho, em comparação aos mais abastados.

Associado a isso, seria salutar que fossem desenvolvidos programas de bolsas de estudo para investir nesses jovens a fim de que se dediquem exclusivamente às suas formações. É preciso entender que muitos deles tem as alternativas populares que mencionei acima, mas que simplesmente não podem cursar pois possuem realidades difíceis, ou simplesmente porque não vêem perspectivas. Não é nenhum absurdo o que estou pedindo, afinal, se o Estado não pôde garantir educação de qualidade para todos, para deixá-los em condições de igualdade, cabe ao mesmo agora suprir essa falha e investir em seus jovens. E se já há programas de distribuição de renda eficientes no país, criar um que seja associado à educação e com retorno a médio prazo tão forte é algo que deveria ser considerado com prioridade!

Se com tudo isso a elite alva ainda permanecesse prevalecendo esmagadora nas melhores universidades, aí talvez as cotas pudessem ser definidas, mas considerando todo esse processo preliminar. Ou seja, a cota seria reservada aos que participaram desses programas e cursos sugeridos.

Em paralelo a tudo isso, e ainda mais importante, continua sendo mandatório o intenso fortalecimento da educação de base, não só para melhorar a qualidade da educação dos marginalizados, mas principalmente para melhorar o tipo de informação que é passada aos privilegiados. É similar à ideia que defendi para a lei das palmadas: precisamos, acima de tudo, formar uma geração que seja intolerante ao preconceito, para que nada disso seja necessário.

Não sei se são alternativas viáveis, concretas, ou sequer se são boas. Talvez hajam outras melhores. A proposta é justamente ampliar este debate, fugindo das mesmices da negação e prova da existência de preconceitos. E não ser contra apenas porque “fere o direito de outras pessoas” – como se os direitos dos cotistas fossem respeitados em algum momento em nossa sociedade – mas sim propor alternativas que não nos façam regredir no pouco avanço que já tivemos para extirpar essa tolice que é o preconceito, de qualquer espécie.

Sobre o que está em pauta no STF, deve ser facilmente aprovada a legalidade das cotas, o que considero correto. Não discuto (pelo menos não mais) se as cotas ferem ou não a constituição, apenas se são boas alternativas para o problema. E eu ainda entendo que existem melhores.

 

Tapa não educa os filhos. Proibí-lo não educa os pais.

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A famosa Lei da Palmada – que proíbe que pais, professores e outros usem de castigos corporais em crianças  - tem caráter assertivo, tal como a política de cotas amplamente adotada para acesso às universidades. Há quem ache ótimo medidas assertivas e afirmativas para intervir com imediatismo em “equívocos” sociais e culturais. Eu não gosto. Tenho receio. E explico.

De fato, nenhuma criança será melhor educada a tapas do que sem eles. A violência não educa, e ainda serve de contra-exemplo para os valores que realmente desejamos deixar para as novas gerações. Pais bem instruídos sabem disso. Os ignorantes não sabem, e não vão aprender com a proibição. Provavelmente continuarão a fazê-lo, e terão novos problemas com isso. Ou deixarão de fazê-lo, sem nenhuma substituição, simplesmente deixando para lá, criando crianças ainda mais sem limites.

No entanto, diferentemente do que penso sobre as cotas raciais, não sou totalmente contra a tal Lei da Palmada. Pode servir ao menos para que as famílias repensem seus hábitos e suas crenças na educação dos menores. Ao contrário das cotas, que não contribui para que os negros sejam mais respeitados, mas aumentam a segregação e discriminação, por basear-se na distinção de raças para reserva de direitos.

Não, proibir as palmadas não gera distorções deste nível, mas também não melhora a qualidade da educação dos filhos, porque não melhora a qualidade da educação de quem os educam.

A melhor maneira de garantir uma boa educação às crianças é investindo na educação dos pais e educadores, assim como a melhor forma de equilibrar a proporção de negros nas universidades é dando acesso à educação de qualidade para todos. Mesmo que leve mais cem anos até que formemos pais que entendam, de uma vez por todas, que dor física não forma caráter.

O que se aprende na escola

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Não deve ser fácil a vida de um professor. Vez em quando me questiono: como educar crianças em tempos de excesso de proteção aos alunos e tecnologias para gravação de áudios e videos extremamente acessíveis, mesmo aos mais novos?

Estes dias enviaram um video gravado em uma sala de aula da escola Jesuíno de Arruda (a mesma que dias atrás virou polêmica nacional por video de alunos de 14 ou 15 anos praticando sexo oral na escola), aqui em São Carlos. O vídeo – este mais recente – mostra uma professora carcando um pito na turma bagunceira. Absolutamente normal e compreensível, afinal, sabemos bem a que nível de stress esses professores são expostos por um salário de merda, para lidar com gerações cada vez mais mimadas e acostumadas com as facilidades do mundo moderno.

No Youtube, a gravação foi postada com os seguintes dizeres no título: professora de física comete bullying. O que escancara pelo menos dois problemas:

  1. A falta de conhecimento e discernimento que ainda existe sobre o termo bullying, o que está sendo combatido e como identificar um quadro desses.
  2. O quanto essa geração não aceita imposições, e mais do que isso, conta com o respaldo da sociedade para sempre se posicionar como vítima, e passa a usar os recursos tecnológicos – que bem dominam – como arma de reversão da autoridade em sala de aula. São eles é quem mandam. E aí do professor que ousar exercer sua suposta autoridade.

Este caso me remeteu a um discurso que ouvi na formatura das turmas de Letras e Pedagogia da UNESP, cerca de um mês atrás. Um dos professores (se eu não me engano o patrono da turma de pedagogia) narrou o caso de uma ex-aluna que encontrara, e que lhe contara sobre o difícil exercício da educação onde há tanto protecionismo aos alunos.

Não é difícil imaginar. Qualquer bronca atravessada, qualquer expressão de comando mais enérgica, por tantas vezes necessária, qualquer atitude punitiva ou mesmo educativa, pelo julgamento do educador, hoje é passível de questionamento seja do aluno, seja dos pais. Lembro-me de um caso de dois anos atrás, em que a professora obrigou o aluno a pintar uma parede em que havia feito pichações. Não parece razoável? Uma demonstração direta de atitude e consequência. Mas a professora tornou-se alvo de severas críticas e passou por julgamento público capaz de desencorajar qualquer colega de trabalho a repitir o gesto. Já o aluno-pichador tornou-se vítima, para muitos.

É preciso devolver aos educadores o direito de educar.

O outro lado da moeda

Sim, todo professor deve ter o direito de educar e de exercer sua “soberania” em sala de aula. Claro que excessos e abusos não são toleráveis, mas este limite do que é julgado como excesso ou abuso não pode ser tão tênue. E lá, em seu espaço de trabalho, é dele o julgamento sobre a disciplina da turma, ou individual. No entanto, mesmo que haja essa autonomia, isso não torna a vida do professor mais fácil.

Explico. O educador tem sobre ele uma responsabilidade a qual, talvez, nem tenha tanta ciência. Claro que estímulos positivos e limites punitivos são matérias abrangidas durante a sua formação, sua licenciatura. Porém, há certas respostas psicológicas que só conhecerão tendo experimentado algo parecido.

exato um mês, eu havia citado aqui que já havia vivido experiência parecida com o que hoje chamam de bullying, mas que essa história eu contaria depois. Pois bem, vou contá-la:

Minha pior experiência escolar se deu quando estava na 3ª série, ou seja, devia ter uns 8 ou 9 anos. Eu era muito tímido e fechado, e ainda sofria para entrar nos círculos de amizade que já existiam antes de eu entrar naquela escola. Um grupo de colegas de sala passaram a me perseguir e me agredir após a turma toda levar uma surra em forma de bronca da professora “por minha culpa”. Meu erro? Estar distraído, olhando para ela (ou para frente, sei lá), enquanto ela fazia uma leitura que eu deveria estar acompanhando no livro. Claro que não foi esse o motivo da bronca, apenas o estopim para um dia difícil, com uma turma bagunceira, onde provavelmente eu era um dos menos responsáveis por isso. Mas sobrou para o lado mais fraco.

Não doía quando eu apanhava, mas machuvava depois. Uma surra na auto-estima, que levou anos para cicatrizar. Mas não foi dos que fizeram isso comigo que carreguei as maiores mágoas daquele tempo. Porque o que começa na escola, morre na escola, e tudo muda lá dentro com muita rapidez. Lembro-me que pouco antes de deixar aquela escola, muitos ali tinham era medo de mim, afinal, era um “menino pobre” numa escola de ricos (claro que a “pobreza”, neste caso, era relativa apenas). 

Temos mais facilidade para lembrar dos casos em que fomos vítimas, mas quase todos já estiveram do outro lado.

A mágoa que levei dessa história, ou pelo menos a que perdurou mais tempo, foi com aquela professora, que num momento em que não conteve a sua fúria contra uma rotina sufocante, expôs um de seus melhores alunos à humilhação que lhe causou tanta dor.

Não é fácil educar crianças, e lidar com tanta responsabilidade num ambiente tão explosivo quanto uma sala de aulas.

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