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Tapa não educa os filhos. Proibí-lo não educa os pais.
2A famosa Lei da Palmada – que proíbe que pais, professores e outros usem de castigos corporais em crianças - tem caráter assertivo, tal como a política de cotas amplamente adotada para acesso às universidades. Há quem ache ótimo medidas assertivas e afirmativas para intervir com imediatismo em “equívocos” sociais e culturais. Eu não gosto. Tenho receio. E explico.
De fato, nenhuma criança será melhor educada a tapas do que sem eles. A violência não educa, e ainda serve de contra-exemplo para os valores que realmente desejamos deixar para as novas gerações. Pais bem instruídos sabem disso. Os ignorantes não sabem, e não vão aprender com a proibição. Provavelmente continuarão a fazê-lo, e terão novos problemas com isso. Ou deixarão de fazê-lo, sem nenhuma substituição, simplesmente deixando para lá, criando crianças ainda mais sem limites.
No entanto, diferentemente do que penso sobre as cotas raciais, não sou totalmente contra a tal Lei da Palmada. Pode servir ao menos para que as famílias repensem seus hábitos e suas crenças na educação dos menores. Ao contrário das cotas, que não contribui para que os negros sejam mais respeitados, mas aumentam a segregação e discriminação, por basear-se na distinção de raças para reserva de direitos.
Não, proibir as palmadas não gera distorções deste nível, mas também não melhora a qualidade da educação dos filhos, porque não melhora a qualidade da educação de quem os educam.
A melhor maneira de garantir uma boa educação às crianças é investindo na educação dos pais e educadores, assim como a melhor forma de equilibrar a proporção de negros nas universidades é dando acesso à educação de qualidade para todos. Mesmo que leve mais cem anos até que formemos pais que entendam, de uma vez por todas, que dor física não forma caráter.
Fat is the forgotten black
5Estava acompanhando um tópico por aí que seguia mais ou menos assim. Apresentaram uma piada, até que bem legal, e todos riam, até que alguém surgiu dizendo:
- Ah! Mas quem escreveu isso foi fulana.
- E o que tem? A piada não é boa?
- Mas é que fulana é gorda…
A sequência não foi exatamente essa, mas resumindo, foi mais ou menos o que quiseram dizer.
Aí, como se fosse uma licença depreciativa, todos os debatentes começaram achincalhar a pessoa, afinal, ser gordo, ou ter sido gordo um dia, autoriza os outros a te ridicularizarem, fazerem piadas com você e traçarem o perfl completo de sua personalidade, ainda que quem faça tudo isso não lhe conheça. E não te dá direito de rebater a nada, pois está em condição inferior: a de ridículo. Ou quiçá vagabundo, pois já li de gente por quem até tenho certo apreço e respeito que obesidade é intolerável, pura ausência de força de vontade.
O país parece estar aprendendo a lidar com diferenças étnicas, sexuais e raciais… Quer dizer, não acredito piamente que as pessoas extirparam esses preconceitos de dentro delas, já que em conversas privadas você ainda escuta o mesmo tipo de piada ridícula e ultrapassada que ajudou a massificar essas idéias que para elas parecem ainda serem verdades, mas ao menos já aprenderam que não podem ou não devem expressar isso publicamente. Porém, ridicularizar qualquer gordo só para não perder a piada continua valendo.
Não pretendo que se inicie nenhum tipo de movimento pró-gordinhos ou contra o preconceito pelo tamanho da circunferência abdominal, até porque quase toda iniciativa a favor de minorias (e os sobrepesos nem são tão minoria assim) acaba ficando um saco, ou criando aberrações como cotas segregacionistas ou carnavais fora de época. Nem tenho nada contra brincadeiras oportunas, pelo contrário, eu mesmo vivo fazendo chacota com meu peso. Gordinho sofre, brinco. Só não posso deixar de achar bizarras ou hipócritas algumas situações, do tipo:
- Aquela pessoa que bota no Facebook frases como “campanha pela vida: cada um cuida da sua”, e depois vai dar aquele “toque de amigo”, do tipo “engordou hein?”, como se o gordo não tivesse espelho em casa.
- Diálogos que se desenrolam mais ou menos na base do: “É bonita? “Não, é gorda”, como se fossem coisas necessariamente mutuamente excludentes, e como se gosto não fosse subjetivo. Eu, por exemplo, não gosto de mulher musculosa (músculos enrijecidos em excesso).
- A mesma indústria de consumo que trata de te empurrar junk food é incapaz de produzir roupas de tamanho adequado para todos os biotipos. Tente, por curiosidade, entrar numa C&A ou Pernambucanas da vida e encontrar uma camiseta maior que GG… Depois me conta.
- Fala-se tanto em acessibilidade aos portadores de deficiência e continuam disponibilizando o mesmo tipo de assento estreito para todos. Eu já vi, em ambiente de trabalho (não foi comigo, que fique claro), entregarem uma cadeira que não durou uma semana para um funcionário obeso, e quando este foi reclamar falaram que a culpa era dele, por ser tão gordo!
Ah! Mas claro, deficiência física não é uma opção. Ser gordo é, e é uma vergonha! Pelo menos é o que fazem parecer.
Quem é o autor da próxima novela das nove mesmo? Acho que vou enviar uma cartinha sugerindo incluírem um casal de gordinhos e suas mazelas no enredo, sem que façam deles o núcleo cômico da trama. Parece ser a receita para fazer a população refletir sobre respeito às diferenças (ou pelo menos deve ser, dada a insistência em inserções de debates sobre “minorias” no plim-plim).
Sem rodeios nem preconceitos
5Já há alguns anos, São Carlos não permite a realização dos famosos rodeios – aquela coisa do boi pulando com um animal montado em seu lombo – tão populares no interior paulista. O argumento principal para a proibição (ou inibição, não sei ao certo) é a alegação de que os animais sofrem maus tratos. Essa peleja tem produzido debates fervorosos nos últimos anos na cidade, inclusive com o surgimento de fanáticos grupos de apoio e de repúdio aos rodeios, passando invariavelmente pela política local.
Neste último final de semana (de 28 a 31 de Julho) aconteceu o XXV Rodeio de Ibaté, cidade vizinha de mais fácil e rápido acesso ao São-carlense. E aí, é claro, suscitou novamente o debate e a troca de gentilezas entre as partes, para não falar do chororô recorrente. Os pró-rodeio tentando demonstrar quão bonita e lucrativa é a festa que São Carlos “está perdendo”, e os anti-rodeio agradecendo por não ter isso aqui, ao mesmo tempo em que reclamam que exista lá (até porque, aqui ou ali, dá praticamente na mesma).
O debate é válido, os dois lados tem suas razões e seus exageros. Triste são os argumentos das partes. De um lado, político falastrão que defende que “boi de rodeio nasceu pra rodá e pulá”, e coisas do tipo. Do outro, onde costumo me colocar inclusive, vejo gente criticando os rodeios porque “odeio esse tipo de música e de festa”. Essa semana li que alguém é contra rodeio porque “só dá gente feia”.
Quando a coisa começa a descambar para o preconceito e desrespeito à diversidade cultural, perde-se a razão.
Em 2009 foi feita uma consulta pública pela Câmara de Vereadores de São Carlos sobre a realização de rodeios na cidade. Eu enviei na época a minha opinião, que é a mesma que mantenho hoje e reproduzo abaixo:
Drops (pós-)eleitorais
0- É Dilma, então, a nova presidente do Brasil. A primeira mulher, e, independente do que vier, é um orgulho presenciar essa página da história, como já havia sido um orgulho ver o operário Lula lá.
- A sensação não é de euforia, longe disso. Talvez não fosse sequer se a minha candidata, Marina Silva, tivesse sido a eleita hoje. Porque nessa hora não vale a empolgação, vale o zelo, a vigilância. Estou como a maioria que NÃO votou na candidata eleita (somando-se aos votos do adversário os votos nulos, brancos e as abstenções). Preocupado. Incomodado de vê-la abraçando Sarney e Palocci, como eu já sabia que seria.
- Mas devo confessar que é sim uma grande sensação de alívio. Um alívio de quem presenciou, de maneira muito próxima, as atitudes anti-democráticas e a total ausência de sensibilidade social de José Serra. Um alívio para quem não concorda com a forma de governar dos tucanos, com exageros neoliberais e orientação para os números, com dependência externa e elevada exposição às crises globais.
- Alívio, acima de tudo, pelo fim da campanha eleitoral. Possivelmente a que mais me envolvi (no sentido de estar envolvido por, e não de participar efetivamente), muito por culpa das redes sociais. Debati, opinei, sei que fui chato muitas vezes, mas, de fato, minha indignação diante de preconceito e covardia é desmedida! E o que vi nesses tempos deu nojo, muito nojo! Começou antes mesmo do período eleitoral. Recebia e-mails já tentando “demonizar” a candidata petista. Mesmo não sendo a minha primeira opção, aquilo me causava repulsa, asco. Pintaram-na como terrorista, por ter pertencido a grupos revolucionários nos anos 60. Ora, ou essas pessoas faltaram às aulas de história, ou provavelmente alinham-se aos militares daquela época. Porque não faz sentido ignorar o contexto histórico daquele período. Na verdade, é quase certo que as mesmas pessoas que ajudaram a espalhar essa imagem da Dilma, votaram em Aloysio Nunes em São Paulo, ou no Gabeira no Rio, e por aí vai. É como citei sobre o assunto várias vezes: quem faz isso, ou é ignorante, leviano, ou age de má fé realmente, com hipocrisia. Porque não é possível! A campanha suja de boatos e ditorções ploriferou-se pela Internet em um volume ridículo e assustador! Inventaram até que Dilma não teria nascido no Brasil, ou que não pudesse pisar em solo americano! Isso menos de um ano do encontro dela com Obama! Foi um desfile cibernético de ódio e preconceito, de todas as espécies. Preconceito de classe, coisa mais antiga e inadequada! Preconceito regional, de gênero, até de opinião… Com o tempo, muitas pessoas passaram a ter um ódio e uma repulsa pela candidata, agora eleita, que, se você perguntasse, poucos conseguiam explicar! Porque não havia razão! Era só preconceito! E eu sei que esse preconceito vai continuar lá, e fico triste por saber que ele ainda existe com tanta força. Mas sinto alívio, sim, por saber que com o fim do período eleitoral não verei isso tão escancarado por algum tempo de novo.
- De longe, o fato que mais me chateou nesse período todo foi o envolvimento de religiosos. Não que eu não aceite que a Igreja mostre sua posição, defenda os valores que a norteiam e que são pilares de suas (nossas) crenças. O que eu não aceito e não entendo é que padres e bispos distorçam a realidade, e usem argumentos frágeis e falaciosos para sustentar o que são, na verdade, suas convicções pessoais, já que em nenhum momento a Igreja se posicionou oficialmente por um ou outro candidato. E tão decepcionante quanto ouvir isso dentro da Igreja que sigo, foi a reação causada por isso, e declarações absolutamente desrespeitosas e preconceituosas de quem está de fora – incluíndo aí, principalmente os petistas.
- Minha expectativa para o Governo Dilma é cautelosa. Não espero que seja melhor que o de Lula, porque, como sempre repito, considero o melhor da história da nossa república. Mas o contexto pode ajudar. O Brasil teve avanços importantes nos últimos anos, e tem uma série de planejamentos e de ações programadas para os próximos quatro anos. Mas vamos ver…
- O PSDB até que se saiu muito bem dessa eleição. Evitou um massacre da Dilma pra cima do Serra, e ficou com maioria esmagadora de estados. Eu só espero que enterrem de vez o José Serra, ou o transfiram pro DEM, que é muito mais a cara do candidato derrotado. Tinha até musiquinha subliminar na campanha: “O Serra é do DEM, o Serra é do DEM”. Bons nomes surgem para fazer uma oposição de verdade. Vejamos, por exemplo, como serão as atuações de Aloysio Nunes e Aécio Neves no Senado.
- Enfim, é muito bom que tudo isso tenha passado. Meus poucos leitores provavelmente agradecem. Hehe.


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